Mudança em Março de 2009

Encontra A Terceira Noite
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Neo-realismo outlet

Um texto muito mas muito abrasivo de João Tunes. Num registo paródico engatado algures entre entre as correntes de aço de um realismo socialista às arrecuas e uma versão outlet do nosso mais suave e escorreito neo-realismo. Jamais saberei servir-me desta forma da lixa número 1.

Depois de Alcácer-Quibir

«O único lado» ao qual o novo partido Movimento Mérito e Sociedade aceita pertencer «é ao lado da frente». Para lá chegarmos será necessária uma força, esta, a única realmente capaz de dirigir «a estratégia e a política de desenvolvimento» em condições de «resolver de forma sensata os aspectos negativos da nossa organização social, política e económica». Claro que o MMS não é de esquerda, direita ou centro, uma vez que «esses são conceitos que já não se aplicam a uma sociedade contemporânea», pois «tiveram o seu papel na história mas estão ultrapassados». No essencial, é preciso levar o mérito ao poder, pois o seu reconhecimento «constitui um fantástico indutor de desenvolvimento equilibrado e sustentado de uma sociedade». Este permitirá maximizar «o espírito de conquista e desembaraço dos portugueses», que afinal até dispõem da maior zona económica marítima da Europa como «princípio activo». Ora aqui estão a mensagem e o discurso mobilizador dos quais andávamos há tanto tempo à espera. Falta agora levá-los «a todas as famílias e a todas as casas». Passando à frente dos missionários da Bíblia, dos angariadores do Citibank e dos adeptos irredutíveis do SMS.

Pode um herói?

Publicado originalmente no programa de sala de Platónov, de Anton Tchékhov. No Teatro Nacional São João, Porto. Encenação de Nuno Cardoso.

Pode um herói sobreviver distante da luz? Teseu terá morrido infeliz por ter sido abandonado pelos atenienses, quando acreditava merecer todas as honras pela bravura que, sozinho e por repetidas vezes, revelara sob o olhar dos deuses. Napoleão não resistiu ao silêncio das noites em Elba e deixou-se amargurar até ao fim em Santa Helena. Garibaldi foi incapaz de suportar o primeiro dos exílios na ilha de Caprera. É próprio dos heróis lutarem ao sol, convivendo mal com a obscuridade e o esquecimento.

A atitude heróica pode afirmar-se como uma disposição admirável, mas não o é sem pesados custos para quem a exercite. A força que o herói detém permite-lhe impor aos outros a dimensão exemplar das suas qualidades, mas estas definem sempre um compromisso entre o seu desejo de se distanciar da vulgaridade e as exigências de estabilidade e de normalização que pautam a sociedade que lhe serve de cenário. É sempre um errante, deambulando entre um mundo superior que só ele consegue vislumbrar e a realidade de uma vida terrena, estável e repetitiva, afundada na vulgaridade, que contraria a sua essência. Assume uma capacidade para criar o único e o novo – nos gestos, nas palavras, nas atitudes – como expressão da mais elevada forma de viver o humano, mas essa condição força-o a uma inexorável solidão, afastando-o da comunidade.

Por isso o herói – como o anti-herói, que não é o seu oposto mas uma sua contrafacção, menos harmónica e mais frágil, contida em regra pela vaidade e pelo egoísmo – apenas o é num insulamento que cultiva. Este pode ser fonte de grandeza, mas também instrumento de uma queda que o conduz à decadência e à morte. Na Crítica da Razão Prática, Kant excluiu o culto do heroísmo da pedagogia da moral justamente porque este impõe um afastamento «dos deveres comuns e correntes» para com os outros, que aos olhos dos seus cultores parecem insignificantes e descartáveis. Estes auto-excluem-se de uma vivência partilhada, embora necessitem dela como quadro que valida esse destaque que sempre demandam.

A figura de Platónov inscreve-se nesta categoria de ser que caminha a passo, apenas aparentemente seguro, entre a luz que espera de uma condição que estabelece para si próprio como rara, invulgar, e a sombra imposta por um meio que a não aceita como sua. Herói para si próprio, porque se presume singular e necessário, e anti-herói para os outros, que apenas o olham como um corpo estranho, irregular, ocasionalmente admirado, quase sempre desprezado, ou, no limite, invejado e odiado pela desfaçatez de transportar consigo o estigma da diferença.

«A mim nada me pode estorvar. Eu sou como uma pedra imóvel. As pedras imóveis são para estorvar…», declara, sempre ostensivo, algures no primeiro acto. Amoral, crendo-se imune tanto à admiração como ao amor, à estima como ao ódio. «A felicidade individual é egoísmo», concederá mais adiante, «e a infelicidade individual é uma virtude!» Mas, ainda aí, o Platónov-personagem apenas retomará, no essencial, o mal de vivre romântico que não é comiseração mas êxtase, determinado pela condição própria do solitário.

As estratégias de sobrevivência de Platónov passam ainda pelo cinismo e pela paródia. A vida comum parece-lhe abjecta e não hesita em afirmá-lo, mesmo correndo o risco de magoar os seus próximos. «Vamos beber pelo fim auspicioso de todas as amizades, incluindo a nossa!», atira a Anna Petrovna. As qualidades comuns e as grandes expectativas merecem-lhe a derrisão e inspiram-lhe o constante sarcasmo. Que alarga a si próprio, ainda que – uma vez mais – o faça para marcar a própria singularidade. Para Sofia Egoróvna: «Sem falar das outras pessoas, o que é que eu fiz para mim pessoalmente? O que é que semeei em mim, o que acalentei, o que fiz crescer?… Tenho vinte e sete anos, aos trinta serei o mesmo – não prevejo mudanças! Depois serei gordo e negligente, o entorpecimento, a completa indiferença por tudo o que não seja a carne, e por fim a morte! A minha vida está perdida!». «Admirem-me por isso!», faltar-lhe-á dizer.

Quando anuncia o suicídio que verdadeiramente será incapaz de cometer – «Finita la commedia! Menos um canalha inteligente!» – enuncia ainda o carácter trágico e irrevogável da incompreensão diante do único, e a sua forma de percorrer este mundo sempre e sempre como um actor. De pé à boca de cena, fugindo de uma penumbra que acredita não ser para si e jamais merecer.

No final, trespassado já pelo tiro fatal de Sofia, resta-lhe apenas o espanto de um momento, o derradeiro – «Espere, espere… Mas que é isso?» – que o herói, como o anti-herói, jamais concebe: o da morte que o remeterá ao implacável desfecho, à escuridão eterna. À vulgaridade.

Pode ler aqui um texto de Filipe Guerra que consta do mesmo programa.

Efeméride

Completa hoje 90 anos de idade o sócio número 37096 do Sporting Clube de Portugal, Nelson Rolihlahla Mandela, nascido a 18 de Julho de 1918 em Qunu, Transkai, África do Sul.

Potemkine

Couraçado Potemkine, de Sergei Eisenstein, foi, provavelmente, um dos filmes que mais vezes vi. Todas elas, salvo uma, na época em que «ir ver o Potemkine», em sessões privadas e com legendas invariavelmente em francês, representava, mais que um momento de amor pelo cinema, um pequeno gesto de ousadia (porventura mais imaginada do que real) e de aprendizagem de militância. Dele emergia, em cada uma daquelas salas escuras, apinhadas de jovens sentados no chão que se esforçavam por ignorar o ruído incomodativo do projector, a apreensão de um modelo de heroísmo revolucionário e daquele que poderia, em parte, ser um dia o seu próprio destino. E também o reconhecimento da génese de uma salvífica e exemplar Revolução (assim mesmo, com um R maiúsculo). A de Outubro, naturalmente.

Originalmente o filme deveria constituir apenas um de seis episódios de um projecto mais abrangente, o qual, todavia, jamais foi terminado. De acordo com Manuel Cintra Ferreira, «o que devia ser um amplo fresco do ano revolucionário de 1905 transformou-se ali na narrativa de um único acontecimento, e mesmo um dos menos significativos que, pela força das imagens novas criadas por Eisenstein, se tornou o símbolo da revolução, e uma sequência imaginada pelo realizador, o massacre na escadaria, o episódio central da narrativa.» Hoje mesmo, na colecção «Grandes Realizadores», o Público oferece a versão restaurada desta obra-prima de Eisenstein, realizada em 1925. Poderemos revê-la agora, essencialmente, como objecto plástico e como documento histórico. Não enquanto reconstituição de um episódio – que o não é, pois incorpora numerosas fantasias -, mas como peça importante na edificação da estrutura mítica do ideal comunista. E como módulo utilizado na fundamentação de uma experiência que cumpriu a sua missão histórica. Para alguns, todavia, as suas imagens permanecem como parte constitutiva do seu próprio crisol de convicções. Também por isso elas continuam presentes.

Jean Ferrat – Potemkine

PS – Sobre a Revolução de Outubro vejam-se aqui alguns textos publicados neste blogue. Todos eles pertencem a uma série que ainda não se encontra concluída.

A rainha da floresta

Por causa da taxa sobre a valorização das reservas das petrolíferas congeminada pelo Senhor Engenheiro Sócrates, anda este mundo e o outro às voltas com o destemido Robin dos Bosques, a linda Mariam, o infame Xerife de Nottingham, o gigante Little John, o rechonchudo Frei Tuck e o bilioso Príncipe João. Só o aprazível Will Scarlet e o azarado Ricardo Coração-de-Leão ainda não foram chamados à colação, mas provavelmente lá chegaremos. Não pretendo ser desmancha-prazeres nem transformar-me em demolidor dos grandes mitos da nossa infância, mas convém que se tenha em consideração, para que possam tomar-se decisões com todos os dados do problema em cima da mesa, que o príncipe dos ladrões poderá, afinal, ter sido a rainha da floresta.

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