O «barulho das luzes»

De férias e por isso com um horário menos pendular, não vi a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. Mas chegam-me de todo o lado notícias e impressões sobre a dimensão magnífica e aparatosa do acontecimento. Acredito que sim, que assim foi. O governo chinês investiu muito neste momento e detém, como todos sabemos, condições e instrumentos para fazer um trabalho bem feito, varrendo as queixas sobre vozes silenciadas, populações deslocadas, trabalho semi-escravo e direitos humanos espezinhados. Obviamente questões menores diante da «grandeza» do momento, da «capacidade de afirmação» da maquinaria chinesa, da concentração imposta dos meios existentes e da conjugação de interesses de dimensão planetária que suporta o evento.

Salvaguardando a diferença imposta pelas tecnologias hoje disponíveis, recordo-me bem, apesar da sombra deixada pelo boicote de 65 países, do espanto do mundo diante da gigantesca coreografia que em 1980 abriu os Jogos de Moscovo. E, via YouTube, já assisti também a cerimónias de enorme «grandeza» e «capacidade de afirmação» em estádios da Coreia do Norte. Em todas essas «grandiosas» manifestações, e apesar da diferença formal que as separa, sempre a mão de uma organização sem falhas, orientada para a consumação da vontade una e a exibição interna e externa dos Estados «dos trabalhadores». Uma capacidade que os Estados democráticos jamais conseguiram igualar, uma vez que não dispõem, felizmente, das mesmas condições para treinarem e para imporem o unânime e o irrefutável.

No Público, Inês de Medeiros esqueceu por momentos estes problemas e concentrou-se na disposição cinematográfica concebida em Pequim por Zhang Yimou, o talentoso realizador que trocou as incertezas da ex-condição de rebelde por um cartão de militante do PCC e pela confiança das autoridades. Já Ruben de Carvalho exultou com a forma como, através do espectáculo de projecção global posto em marcha, a China «procurou transmitir valores de inteligência, do valor do saber, da comunicação e do entendimento entre os homens». Fazendo questão de frisar, com indisfarçável satisfação, que «falharam completamente as “previsões” que, por um lado, anunciavam uma liturgia totalitária e, por outro, uma expressão de agressivo nacionalismo». Chama-se a isto ampliar o «barulho das luzes».

12 Respostas

  1. aqui no you tube:
    http://jasmimdomeuquintal.blogspot.com/2008/08/jogos-olmpicos.html

    pode ver a cerimónia_ é um discurso de guerra.

  2. Não viu a cerimónia, mas fala sobre ela?
    Parece o Pedro Rolo Duarte, que não leu um livro sobre o qual tem tecido as mais rídiculas considerações.
    É o “achismo” português na sua máxima expressão.

  3. Cada qual tira dos Jogos o significado que quiser. Para ser sincero nem sequer percebo qual o alarido em relação à China quando estes já se desenrolaram em Berlim em 36 (o Jesse Owens é que estragou a festa a Hitler) e em Moscovo em 80.

    Os direitos humanos pouco parecem ter que ver com o desporto, ou pelo menos para o COI. Além do mais, as ditaduras sempre aproveitam estes momentos para enaltecer as suas políticas, ou não estivesse a China já à frente do ranking das medalhas.

  4. Qualquer leitor que leia o post do princípio ao fim perceberá que este post não é sobre a cerimónia em si, mas sim sobre as suas circunstâncias e condições de preparação. E também sobre o seu eco (o tal «barulho das luzes»). A chamada de atenção para alguma similitude com os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, faz todo o sentido.

  5. “sempre a mão de uma organização sem falhas, orientada para a consumação da vontade una e a exibição interna e externa dos Estados «dos trabalhadores»”

    Entretanto a capacidade de impor “o unânime e o irrefutável” reside naqueles que como no Iraque vão impondo o “Império ocidental” como a única saída possível. Derradeiro beco sem saída? Começa agora a vislumbrar-se que algo não calha certo, e que isso causa alguma urticária a alguns?
    Alberts

  6. Um breve lembrete destinado a quem possa considerar-se «censurado» pela não-aprovação de algum comentário – cerca de uma dúzia de leitores desde que este blogue abriu, vai para dois anos e meio (contabilizando uma única vez aqueles que comentam com nomes diferentes a partir do mesmo número de IP) -, chamando de novo a atenção para a existência de normas que regulam a sua publicação. E que podem ser encontradas aqui:
    http://aterceiranoite.wordpress.com/edicao/

    Trata-se, como ali é dito, de «uma opção editorial, própria de qualquer publicação periódica e particularmente necessária nas condições de anonimato que a Internet possibilita» (ver os critérios na referida página).

    Felizmente vivemos numa sociedade na qual existem muitos lugares – incluindo blogues, facílimos de criar e oferecendo uma quase total impunidade – onde cada um pode sempre publicar o quer que seja e encontrar um público interessado. E ninguém é preso ou perseguido por isso.

  7. Convinha que Rui Bebiano não menosprezasse a capacidade analítica dos leitores.

    Com efeito afirma acima que «Qualquer leitor que leia o post do princípio ao fim perceberá que este post não é sobre a cerimónia em si, mas sim sobre as suas circunstâncias e condições de preparação.».

    A verdade porém é que qualquer leitor que leia o post de principio a fim concluirá fácilmente que, em três parágrafos, um é dedicado a lembrar quantas cerimónias de abertura espectaculares já houve antes e outro é de crítica a textos no «Público» de Inês de Medeiros e de Ruben de Carvalho que eram explicitamente sobre a cerimónia de abertura.

    É mais sério assumir o que se escreveu em vez de, depois de escrito, querer mudar a fisionomia a temática do que se escreveu.

  8. Com toda a certeza, caro «eduardo freitas». Obrigado pelo aviso e parabéns ao seu IP que se desdobra para servir tantas, tão sérias e tão frontais «pessoas». E não apenas neste blogue.

  9. [...] Eu gosto de ver “as corridas”, como lhes chama o Nelson, mas isso não significa que não partilhe das convicções dele ou que não sinta que, de facto, precisamos de resistir ao “barulho das luzes“. [...]

  10. Tenha calma, Rui. Todas as formas de comunicação têm o seu ruído; esta não poderia ser excepção. A Net não são só as facilidades de que fala, também o ruído de que eventualmente pode não gostar, mas que é originado, afinal, pela mesma tecnologia que lhe permite comunicar através de um blog.

    Mas tenha em atenção que a eventual censura baseada no facto de haver identidades diferentes a comentarem do mesmo IP pode não ser justa (e em acessos de banda larga quase nunca é). A Netcabo, por exemplo, não pode, tecnicamente, consignar, por defeito, um IP único a todos os assinantes. Quem quiser tê-lo tem de fazer um pedido e um pagamento suplementar. Quem subscreve a Netcabo em Lisboa, Cascais e Sintra, por exemplo, pode ter o mesmo IP, se não no valor do nó, pelo menos na parte final do endereço (ex xxx.yyy.zzz.100 ou xxx.yyy.100.200).

    Já o que é único em banda larga por cabo e ADSL é a MAC address. Mas o Rui não tem meios técnicos (penso eu) para verificar a MAC address de quem comenta. E se tivesse, estava, simplesmente, a cometer um ilícito criminal penalizável nos termos da lei.

    E também tem de contar com a utilização (hoje já vulgarizada) de proxies. Pessoas a ligarem-se ao seu blog desde a Austráçia, a Bolívia, a Islândia, etc, podem ter todas o mesmo IP, quando não se ligam da França a um proxy situado na África do Sul, fazendo-o pensar que o comentador está naquele país africano.

  11. Agradeço a intenção mas sei do que estou a falar. Já agora: utilizo sistematicamente a Internet desde 1992 ou 93, quando ainda nem sequer esta existia em Portugal tal como a conhecemos hoje. Sei muito bem, por isso, como é que estas coisas funcionam. Digamos que estou a chegar a algumas conclusões através de uma operação matemática complexa e não apenas da soma de um mais um. E sem perder muito tempo com isto, claro. Não vale a pena fazê-lo com tão desinteressante tema.

    A partir deste momento neste post só aprovarei comentários que tenham a ver com o assunto do mesmo.

  12. o barulho das luzes foi também uma manipulação do directo feito pelos chineses – o fogo foi gravado e a pequena cantora que viamos emprestava a face a outra, julgada menos fotogénica por um membro do pcc……http://www.telegraph.co.uk/sport/othersports/olympics/2545387/Beijing-Olympics-Faking-scandal-over-girl-who-sang-in-opening-ceremony.html

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