
Recebo a notícia da morte acidental, aos 76 anos, de Bronislaw Geremek. Faço uma breve ronda por blogues e sites que referem o acontecimento e vejo que a generalidade dos obituários destaca, da sua quase sempre agitada vida, principalmente, ou exclusivamente, a actividade política. Desde os tempos de militante do PZPR Comunista, que abandonou por discordar invasão da Checoslováquia pelos tanques do Pacto de Varsóvia, até à intervenção directa no processo complexo de abertura e democratização da sociedade polaca iniciado em 1989 e ao combate europeísta. Todavia, para mim, de Geremek o que fica foram sobretudo umas quantas tardes de Inverno passadas numa biblioteca gelada e quase vazia, lendo e anotando alguns dos artigos fundadores que escreveu sobre os pobres e os marginais na Idade Média. Foi um daqueles historiadores – e foram bem poucos, infelizmente – que me ensinou a necessidade, e a beleza, de procurar e de decifrar, por detrás dos gestos dos poderosos gravados na pedra e nos documentos oficiais, a voz dos silenciados, dos esquecidos e dos desalinhados. Por isso, que não é pouco, jamais o esquecerei.
Arquivado em: Apontamentos, História

Não quero comentar.
Quero só partilhar consigo este seu ADEUS sentido ao mestre, ao historiador, ao medievista, com quem aprendeu a ir buscar além, aos vales de lágrimas e prenhes de silêncios, descobrindo os que não têm voz, ou cuja voz foi distorcida ou, obscenamente silenciada.
José Albergaria
Quando alguém assim desaparece, resta um sentimento de quase orfandade e de lugar vazio, não é?