Sempre insinuada nestas alturas, parece-me obtusa e petulante a fantasia de que quanto pior correrem as coisas à selecção portuguesa de futebol tanto melhor a nossa vida colectiva progredirá. Menos distraídos, passaremos então a interessar-nos pelos temas que realmente importam, como a leitura, a política, a produção de couve-lombarda e a ginástica rítmica. Mas não é por não colaborar nesse pranto inútil que diluo, em centenas horas de sofá a ver a Sport-TV, o sentido crítico que me esforço por manter.
A verdade é que, como muitos outros compatriotas, gosto tanto de futebol quanto sinto uma profunda aversão pelo meio em si. E também me aflige a obsessão mediática pela unha encravada do Cristiano, pela flatulência do Deco, pela Playsation do filho do Simão ou pela simpática e trabalhadeira prometida do jovem Rui Patrício. Incomodam-me, realmente, os «egrégios avós» berrados por pessoas que não sabem o que possa ser tal coisa. Mas não é por isso que deixo de saborear a arte em si, e que me recusarei a vibrar, espero, com as vitórias alpinas da nossa selecção. Ou deixarei de ficar bastante deprimido com uma eliminação precoce. Como o amor e o ódio, o gosto pelo futebol exige de nós a melhor dose possível de irracionalidade. E é aí que está o gozo todo.
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Uma releitura do “jovem” Catulo (Odi et Amo) faz , nestes impasses existenciais, sempre bem!
Mas não se aconselha a nehum senhor jornalista, naquelas inenarráveis viagens ao “interior” da Selecção de futebol (a propósito, sabem que, hoje, a nossa selecção de voleibol masculina disputa o apuramento, possíuvel, para os Jogos Olimpicos de Pequim?…) a perguntar ao Simão Sabrosa quem é Catulo…Ainda se arriscava, nessa outra eventualidade, a receber, como resposta:- Um novo reforço para o Benfica, claro.
Estou consigo -neste dilema que os nossos bárbaros gostos nos provocxam.
Zé Albergaria
Não, não, eu até penso melhor «nas coisas que importam» se as outras correrem bem à selecção.
E que há de mais inspirador do que ler, logo pela manhã, que «o melhor do mundo não pode ficar no banco»?
Sobretudo hoje cai como sopa no mel este excelente comentário, com o qual partilho e vivo as mesmas ambivalências, quanto a este fenómeno. Mas dizia eu que logo hoje em que ouvi na TSF um jornalista dizer que amanhã vamos jogar com a Jórgia. Divino ou quase. E viba a seleçon…