O epílogo de Paris


«Afinal, o que querem eles realmente…?»

Apontamentos do Maio – 13

O escritor barcelonês Eduardo Mendoza publicou no último Babelia um artigo de página inteira («El mayo de nuestra juventud») que insiste a maior parte do tempo em muito daquilo que tem sido dito e redito sobre o Maio de 68. Reconhece sobretudo que não se tratou de um movimento revolucionário, mas sim «de um colocar em cena de diversas tendências». E sublinha a sua condição de primeira ocorrência retransmitida pelas televisões de quase todo o mundo, inaugurando de certa maneira uma era renovada da informação. A parte mais interessante ficou para o final, resumindo numa curta frase a dimensão de epílogo de um tempo, mais do que de madrugada de um mundo novo, que o terramoto de Paris lhe parece conter. Considera assim que ele «marcou sem sabê-lo o fim das grandes ideologias, especialmente do marxismo, que já não voltou a levantar a cabeça, e marcou também o fim de Paris como capital intelectual do mundo, título que havia adquirido na época do Iluminismo mas que agora cedia, sem reagir, a Londres e a Nova Iorque.» Dois aspectos que têm passado algo ao lado da actual vaga comemorativista.

2 Respostas

  1. Concordo com o tom do artigo.
    Os mais cínicos comentadores vão ainda mais longe: Os amigos americanos aproveitaram o Maio de 68 para se livrarem do velho De Gaulle. Por outro lado, um dos “profetas” de Maio de 68, Herbert Marcuse, alemão naturalizado americano, afinal trabalhava para o governo dos USA. Depois de arrefecerem as cinzas de 68, nunca mais se falou de tal “filósofo”.
    Muitos dos ditos mentores do 68 em França, hoje em dia são vociferantes empregados do Império.
    Nunca fui um entusiasta de Maio de 68, do de França, que no México, por exemplo, a conversa foi outra, e com uma feroz repressão, com um massacre de estudantes. Disso pouco se fala. Fala-se do asséptico 68 de França.

  2. Certeira a constatação, mas não me parece óbvia.

    Provavelmente, sem Maio 68, em Paris, teria ocorrido a mesma situação, no que concerne à deslocalização do centro cultural parisiense para Londres e Nova Iorque: o que ocorria já e então nas belas artes e no cinema já eram sinais prémonitorios!

    Quanto ao fim, ou ao principio do fim, do marxismo…já me parece mais interessante, se atendermos ao que ocorreu, depois, logo depois, em França, em Italia, em Espanha e, mesmo até, em Portugal, com a deriva dos “marxismos” e, sobretudo, com a perda de atractibilidade deste como “teoria” quase holística, integradora.

    Os intelectuais foram debandando – em todo o Ocidente – do comunismo e,após, do marxismo, mas sem alternativa à vista.

    A implosão do mundo socialista ainda tardou, mas veio a ocorrer.

    Zé Albergaria

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