Os nossos birmaneses

Ao procurar aplicar os regulamentos comunitários sobre higiene alimentar às instituições de solidariedade social, precisamente numa altura na qual o número de famílias carenciadas está a aumentar e os bens de consumo essenciais a encarecerem bastante, a ASAE segue o modelo birmanês do total menosprezo pelas pessoas comuns. Exigir neste momento, em Portugal, que as cozinhas dessas instituições possuam rigorosamente os mesmos requisitos que as de um restaurante, proibindo-as de aceitarem alimentos oferecidos pelas populações e obrigando-as a deitar fora toda a comida congelada em arcas normais, constitui uma grave prova de impiedade. E, uma vez mais, de cega submissão a exigências de um higienismo irrealista e inumano que nos chega do exterior e os nossos tecnocratas importam sem ponta de vergonha.

9 Respostas

  1. Prof.Rui Bebiano.
    Tenho vindo a ler com interesse o seu Blog e,sem falsas modéstias,aprendido .Este seu post sobre a ASAE veio entroncar-se em variadissimas conversas que tenho tido com a minha mulher sobre este assunto,nomeadamente a possibilidade de as pessoas com maior sentido social estarem a criticar um fundamentalismo com outro,isto é,dobrando a vara para o outro lado.
    Abordar este assunto mesmo de forma muito redutora é dificil porque há aqui um mundo de coisas a distinguir e,como de costume, todas interligadas.
    Sou quimico por formação e director de empresas durante muitos anos.Fiz–a sério–uma série de desportos federados,desde o Atletismo no Sporting,até aos vários anos de Karaté,para terminar com muitos anos de ginásio ,até ter adoecido.Estudei ao longo de uma vida a problemática alimentar e a suplementação alimentar necessária para se viver mais e com mais saúde até ao fim.
    Um problema incontronável é que estamos a viver vários tempos num tempo só, separados por patamares muito diferentes a nível económico,técnico e cientifico e que,quanto maior forem as diferenças mais a interpenetração futura será maior e mais caótica.Sobrar-lhes-á os condomínios de luxo,quais fortalezas,defendidas por mercenários privados.E,já que falamos em alimentação ,não esqueçamos a grave crise alimentar,os motins da fome que começam a aparecer,devidos a um conjunto de factores concomitantes atribuiveis á globalização neoliberal e aos senhores do Mundo.Todos lhe são imputáveis,mas os mais directos são os lucros enormes das grandes empresas de comercialização e o capital financeiro,na sua cega ganância,a ,por exº,triplicar cotações de cereais,nomeadamente através das suas “compras futuras”,.em 15 meses.É a FOME,é o morrer á fome e ,até aí ,um mundo de agruras populacionais.Sentem-se “bolhas”a crescer que podem conglomerar-se numa só e uma crise cavada aparecer mais depressa do que se imaginaria ,juntando-se, ainda por cima, ao ínicio da falência do globo,nesta enorme fuga em frente destes senhores.
    ISTO ESTÁ TUDO LIGADO.Qual a percentagem das mulheres portuguesas que sabe utilizar devidamente o seu frigorífico?A carne,mas sobretudo o peixe,é um alimento altamente perecível.Não deve estar nas prateleira do frigorífico,a temperaturas inferiores a 5 ºC,mais de 24h até ser consumido.
    Os cozinhados,nas mesmas condições, mais de 60h a um máximo, já a pisar o risco,de 72h.
    Os alimentos ultra congelados que ,por vêzes, se compram á peça,sobretudo restaurantes,se forem metidos no congelador ou em arca frigorifica,permitem um armazenamento prolongado.O que não podem nunca é serem descongelados e voltarem a congelar,como o fazem inúmeros restaurantes e postos de venda a retalho.Nunca se deve conservar ou refrigerar e congelar, alimentos preparados ou cozinhados,nem juntar alimentos vegetais com animais,durante e após a preparação ,de forma a evitar contaminações cruzadas.,etc,etc.
    Os manipuladores de alimentos serão obrigados a vestir uma bata desinfectada,utilizarem luvas, só e exclusivamente, no manuaseamento e deixarem de trabalhar logo que suspeitem estar doentes,sendo o seu retorno autorizado por um médico.
    A minha mulher,que foi operária conserveira desde criança,durante muitos anos e depois ligada ao “frio”,ensina-me,no mercado e no talho ,a distinguir entre os alimentos frescos e aqueles que deviam ir para o lixo que,segundo ela,são muitissimos ,por falta de fiscalização e ignorância das pessoas.Com treino consegue-se,de modo evidente,fazer a sua detecção.Eu,ensinado,já sou capaz de os determinar.Acabam no estômago de alguém,inclusivé por redução de preços e,quando não são capazes de lhe dar destino económico,têm a caridade”de os oferecer a essas instituições,não estando nós,país mais atrazado da Europa a 15,no patamar do 3ºMundo.Esta caridade,bastanta praticada no nosso país é,pura e simplesmente ,obsena a fazer lembrar que nestes países o prestamista usurário é muito necessário,porque há pessoas que não sabem aquilo que vão comer no dia seguinte.

    O folclore do directamente do produtor,infunde-me reservas.Como muitissimo mais confortavelmente um produto duma empresa certificada,porque conheço os múltiplos procedimentos a que foram obrigadas,desde o armazenamento ao produto final e ainda com a confiança daqueles irem sendo escrutados por auditores externos.Porque estou a ser longo,dou-lhe dois exºs singelos:
    *Nas tasquinhas com os seus petiscos de que tanto gosto,as especialidades são feitas em grandes apetrechos que levam grande quantidade de óleos,que nunca são renovados totalmente,como que no carro fossemos atestando o óleo das perdas.Nos óleos formam-se substâncias polares por acção do calor nos ácidos gordos insaturados,problema bastante agravado com a renovação dos alimentos a cozinhar que transportam consigo água.Estes produtos tão gostosos e caseiros provocam,comprovadamente a nivel científico ,problemas graves no coração ,veias,cancro do pulmão e do estômago.
    *Nunca por nunca ser se deve deixar á temperatura ambiente cremes e molhos.E as bolas de berlim tão caseiras?sobretudo com as bafuradas de calor das praias.Um verdadeiro maná para os microorganismos.
    *Os gelados devem ser fabricados e imediatamente embalados até ao seu consumo.E os gelados tão caseiros que são metidos numa máquina e que,por compressão de “manete”,enchem os cones individuais.Estas máquinas estão permanentemente infectadas,através do ataque do gelado sobrante que resta sempre no cone da própria máquina.
    Em tempo de crise,já fora das questões de índole técnica,o pequeno e médio negociante não pode perder dinheiro e vende.Como referi tenho nos ollhos milhares de exemplos qua minha mulher,a meu pedido,me vai traquejando.
    Á ganância do lucro nem as grandes empresas escapam,dominando com excelência técnica e cientifa a sua actividade.Na europa as grandes fábricas de margarina incorporavam nas suas margarinas de cozinha sebo de origem animal.Leu bem:sebo de origem animal,por ter um preço bastante inferior aos dos óleos.Sebo que devia ir para sabão,rações,biodisel,lubrificantes,uso veterinário,conservação de couro,etc,etc.Portanto com muitas aplicações diferentes.”Mas é o lucro,estúpido”.
    Só por aqui poderiamos chegar muito longe ás margarinas industriais,sem qualquer controle público de composição e que incorporam os mais diversos alimentos.É paradigmática a margarina para fazer “folhados”,que tem de ter uma enorme ductibilidade.Estas todas têm pontos de fusão bem acima dos 37ºC do organismos e os médicos deviam avisar as pessoas do risco que só isto acarreta. Mais um exºpara se perceber melhor o posicionamento.
    .Falei de frituras e os graves problemas que daí resulta.Só para sublinhar sabe-se que logo a partir dos 180ºC,os óleos passam a decompor-se de imediato,com acúmulo de substâncias patogénicas.Qual dos “caseiros” utiliza um termostato que deveria ser obrigatório.
    Quando se vê na TV apreensões da ASAE ,em grandes camiões e mostram peixe e carne em decomposição acelerada,eu e a minha mulher comentamos sempre,que nisto como em muitas outras coisas,é a ponta do iceberg.
    A nossa democracia vive em cima das costas de 20%da população abaixo do limiar de pobreza e,como de costume,são muito estes que mais sofrem com este tipo de problemática.
    Forme-se,eduque-se a ASAE,faça-se com que respeitem as populações,dêem-lhe um normativo sem dúvidas e depois esperece-se que sejam respeitados para até serem mais apoiados num país da Europa em que ou se passa fome ou se têm doenças por aquilo que se come.Só os ricos é que,mais uma vêz, têm direito á grande longevidade com saúde,através duma panóplia de acções perfeitamente hodiernas.
    Investimentos escassos,bem apoiados cientificamente e largamente divulgados na TV pública obviariam a grandes custos na S.Social,a menos que não se queira introduzir o “actual estado da arte”,por causa da sustentabilidade da S.Social.
    Ressalva:Não me identifico minimamente com os métodos da ASAE porque,em rigor,os nâo conheço.Aquilo que se ouve nas televisões e jornais é “ruido” e,como de costume,não há um jornalismo de investigação que nos fizesse compreender os verdadeiros erros da ASAE,até como pressão para que sejam o mais depressa corrigidos,no interesse do cidadão comum,tanto mais quanto mais pobre for.Quando se tem fome e/ou se é ignorante come-se tudo.Não é esse o País que eu quero e no reporte a esta problemática implicará uma ASAE mais eficaz e,pelo menos durante anos,com mais braços a irem muito mais além em profundidade e extensão.Há podres ,enumeráveis,que eles não “cheiram” minimamente.
    *Lá por sermos um país de pobres não nos lembremos de lhes dar comida de cão,por vêzes bem nutritiva,porque a Fábrica ficou com um stock grande,com um limite de utilização ultrapassado.
    Conheci durante anos,sobretudo no tempo do fascismo, amigos que se alhevam da misérias dizendo que teria de ser resolvida pelo estado.Podiam esperar sentados por comer.Ajudo,de acordo com as minhas possibilidades, instituições de benemerência e até penso que a coerência ética e moral baixada ao nível da vida de todos os dias é grande potenciadora de transformações.Que a esquerda leia bem o imbróglio da encruzilhada a que os donos do mundo nos conduziram e o faça muito claramente.E Já! porque agora o tempo,de facto,urge.
    O Já! tem agora um verdadeiro sentido.

  2. Obrigado pela opinião. Este extenso comentário refere alguns aspectos sobre os quais, de facto, vale a pena reflectir. Em todo o caso, infelizmente não vivemos num país, e muito menos num mundo, no qual a maioria das pessoas possa prescindir de alguma comida com menos qualidade. Principalmente quando a alternativa é a subnutrição ou a fome.

    Nota: Sugiro aos leitores que não publiquem aqui textos demasiado longos, como é o caso deste, procurando sempre sintetizar o que pretendem dizer. Atendendo às características deste espaço para comentários, para a maioria eles acabam por se tornar praticamente ilegíveis.

  3. Acho que apanhei uma indigestão…

    Agora a sério, o que me parece é que começamos a ter “aplicadores” de leis que talham a direito sem atender às diferenças. Seria muito humilhante tentar perceber primeiro a situação dessas instituições? Não vivemos num mundo hiper-desinfectado, hiper-aséptico, nem em redomas esterilizadas…
    Boa semana

  4. Prof.Bebiano.
    Peço imensa desculpa,mas aquilo que perpassa o meu comentário é a consideração de alimentos impróprios para consumo,por várias razões diferentes, em vários graus diferentes,cuja utilização cria vários niveis de doença e diminuem em muito a esperança de vida média dessas populações,o que representa mais um tipo múltiplo de malfeitoria que não podemos deixar de denunciar,até á preversidade de certas ações de “solidariedade”.
    Também percebo o seu comentário.Estou bastante atento aos númerops que começam a ser astronómicos da fome no Mundo e ainda a procissão vai no adro.No texto digo que quando se tem fome ou se é ignorante come-se tudo.
    Saudações cordiais.

  5. Fortes com os fracos, fracos com os fortes.

  6. Aplicar a lei “atendendo à diversidade das situações”, como pretende a Cristina, é aquilo a que vulgarmente se chama cunha. E estranho essa ideia de que a comida estragada é aceitável para os pobres.

  7. Caro João Pinto e Castro, gosto pouco de discutir em casa alheia, mas partamos do princípio “tertuliar” e talvez eu tenha sido pouco clara:
    1- não lê em nenhuma das minhas frases a defesa de que é aceitável dar comida estragada aos pobres. Já lhes basta ser pobres e viver na dependência dessas instituições. O que eu digo é que o higienismo levado ao extremo pode redundar em situações bem mais penosas para os seus alvos. Lembro-me de ter lido há uns meses uma reportagem sobre ricos norte-americanos, que alimentavam as suas famílias com os desperdícios dos supermercados. Na altura, li na notícia um comportamento demagógico de quem já não sabe o que fazer da vida e se entretem a brincar aos pobres, mas se atentarmos nos níveis de desperdício da nossa intitulada sociedade da abundância, não sei que lhe diga…
    2 – não sei se é possível inferir que a aplicação da lei consoante as situações é cunha. O que eu considero é que a lei deve ser o mais ampla possível de modo a prever a diversidade de situações. E não me parece nada que essa prática entre no registo da cunha. Um restaurante que tem um fim lucrativo não pode equiparar-se a uma instituição que por vezes se debate com sérios problemas de gestão e orçamento.

  8. Esqueci-me de agradecer e pedir desculpas ao anfitrião.

  9. O anfitreão agradece até intervenções como estas, cara Cristina. Só lamenta nem sempre se meter na conversa.

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