Pedir o impossível
Apontamentos do Maio - 9
O TBR chamou-me a atenção para um artigo de Slavoj Zizek aparecido no El País de ontem («Mayo del 68 visto con ojos de hoy»). Sublinho o parágrafo final: «Lo que mejor condensa el auténtico legado del 68 es la fórmula Soyons realistes, demandons l’impossible! (”Seamos realistas, pidamos lo imposible”). La verdadera utopía es la creencia de que el sistema mundial actual puede reproducirse de forma indefinida; la única forma de ser verdaderamente realistas es prever lo que, en las coordenadas de este sistema, no tiene más remedio que parecer imposible.»
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Caros Contertulianos,
Julgo que foi Marcuse quem cunhou essa altissonante frase, que deixou multidões em delírio, durante vários anos, talvez décadas.
Mas quando vemos, ouvimos e lemos alguns desses imaginados seus mais legítimos intérpretes não podemos deixar de nos sentir penalizados, por também havermos sido embalados por essa desmedida ingenuidade.
Ainda hoje, na RPT, vi um comovido membro dessa geração sumamente recalcitrante, proferir banalidades, certamente depois de haver debitado outras que tais, em louvor dessa nova «utopia política» da governação socrática.
Por estas e por outras, é que hoje todos estamos a carpir por essas frases, que um dia nos exaltaram, nessa idade de todos os deslumbramentos, como de todos os equívocos.
Como podemos, hoje, continuar a evocá-las e, ao mesmo tempo, contemporizar com o presente embuste socrático, chefe destes múltiplos ex-ícones estudantis dos desconcertantes anos 60, agora devotados à causa socrática da compatibilização do socialismo, mesmo em versão social-democrática, com a prática do mais desbragado neo-liberalismo económico e financeiro, sempre contestado nos americanos, mas consentido entre nós, desde que realizado sob a tutela de supostos socialistas ?
Sans regret e sans rancune…
Bom início de semana, 40 anos depois desse outro Maio de todas as sonhadas utopias…
Dúvida excruciante : a quem pertence o famoso «sejamos realistas, exijamos o impossível» : a Marcuse, Che Guevara ou a outro ?
A frase é atribuída aos situacionistas e, segundo me diz a papelada, surgiu pela primeira vez numa parede junto à estação de metro de Censier-Daubenton.
Toda a gente faz os possíveis… Agora para o Impossível só alguns tão talhados… Costumo dizer que as consequências das nossas decisões, estão directamente relacionadas com a maneira como educamos os nossos actos. A Revolução só começa quando pedirmos o Impossível e o realizarmos!