
Sir Bob Geldof é um tipo bastante irritante e que vale menos do que julga. Não fora a participação num programa sobre a fome na Etiópia que a BBC passou em 1984, e o seu pequeno sucesso como músico e actor tê-lo-ia confinado a actuar o resto da vida em bares esconsos das imediações de Quarteira ou de Shepard’s Bush. A partir da canção de caridade «Do They Know It’s Christmas?», para a qual conseguiu na altura o apoio de pessoas como Bono, The Edge, Boy George e Paul McCartney, e do mega-concerto Live Aid, de 1985, Geldof transformou-se numa figura reconhecida em toda a parte, perambulando como porta-voz de um certo remorso da pop-star, tão preocupada com os males do mundo, os famintos e os pobrezinhos quanto por levar uma vida protegida e sumptuária. Pelo meio, Bob lá foi conseguindo dinheiro, alguma influência, eventualmente um certo êxito numa tarefa que não terá deixado de ser importante para as pessoas carenciadas que dela podem ter beneficiado. Desculpando, de certa forma, o facto de ser um tipo arrogante e assumidamente conservador, de usar fatos às riscas, de dar-se a conhecer por dizer a primeira coisa que lhe vem à cabeça, e de ser apaparicado por quem ainda se deixa deslumbrar por qualquer rosto de projecção planetária.
Dito isto, convém reconhecer que está por provar que, tal como Geldof disse agora em Lisboa num jantar para banqueiros, diplomatas, políticos, académicos e jornalistas, Angola seja essencialmente «um país gerido por criminosos». Aceitemos que possa andar lá por perto. Ou que não, que não ande. Que possa até ser natural que os responsáveis angolanos se indignem, considerando as palavras do irlandês «um exercício puramente gratuito». Mas o que já não se pode aceitar é que o oficioso Jornal de Angola critique agora o Banco Espírito Santo pelo simples facto de ter convidado o músico, e trate este último como um criminoso e um vulgar beberrão, invocando a possibilidade de se tomarem «medidas legais apropriadas» contra ele. Deveriam saber que em democracia toda a gente tem o direito de dizer disparates. Ainda que estes possam conter algum fundo de verdade. Angola tem pela frente um longo caminho a percorrer, até remeter à irrelevância atitudes persecutórias como esta.
Arquivado em: Actualidade, Opinião

[...] – Subscrevo o Rui Bebiano a 95% (os outros 5% ficam de reserva para uma ironia que não sei se percebi, mas enfim, Angola é [...]
Se o tema “fome” não tivesse hoje a actualidade que tem, quase que apetecia dizer: “junta-se a fome com a vontade de comer”…
Geldof é um acidente histórico no que à música popular respeita. Estava no sítio certo na altura oportuna e cavalgou o momento com um dos poucos talentos que sempre revelou: farejar o lado donde sopram os ventos.
Junte-se à receita uma pleiade de endinheirados dispostos a resgatar a sua má consciência nestas “conferências-romarias” para as quais convidam “figuras” destacadas pagas a peso de ouro e a “indignação” ofendida de uma nomenclatura que não sabe o que é prestar contas do que faz…e “missa dita est…”se não fosse trágico seria caricato…
Tomemos cuidado, nós outros também, ainda que aqui em Portugal, na Europa, e já sem quaisquer pretensões a civilizar seja quem for, porque o longo e vindicativo braço angolano pode cá chegar … por si mesmo ou por interpostas personagens, algumas até de muito boas famílias, de sangue ou de ideologia…
O Bebiano não sente vergonha de ter escrito uma coisa destas?
Só lhe resta pintar a cara de preto e seguir para Angola.
Lá verá como elas mordem.
Normalmente não se publicam comentários como este último (veja-se a página editorial). Abro uma excepção porque ele funciona como exemplo de uma leitura desatenta.