
Apontamentos do Maio – 4
Paul Berman (A Tale of Two Utopias) e Luc Ferry/Alain Renaut (La Pensée 68) falaram de uma «má ressaca» das experiências de 1968, no carácter vazio das propostas de mudança então adiantadas, na sua rápida redução a um estado de irrelevância. Uma certa direita, porém, não leva demasiado a sério esta desvalorização, vendo-se forçada, pela boca de Nicolas Sarkozy, a afirmar que «é preciso liquidar Maio de 68». A frase não passa de uma enorme boutade: como poderia Sarkozy ter a vida pessoal que tem, manter o estilo que mantém, e ao mesmo tempo ganhar umas eleições presidenciais, sem a cultura da informalidade e da complacência moral que o Maio legou e simboliza?
Por outro lado, resulta igualmente equívoca a ideia de que a esquerda actual é a herdeira única e universal de 68. Transcrevo o essencial do argumento do filósofo e ensaísta espanhol José Luis Pardo a este propósito, retirado de um artigo surgido há duas semanas no suplemento Babelia do El País. Ele suscita leituras críticas dessa vinculação exclusivista da esquerda aos acontecimentos do Maio:
«Primeiro, porque existem coisas provenientes de 68 que ninguém deseja herdar (como os grupos terroristas); segundo, porque a nova direita é muito mais ‘sessenta-e-oitista’ do que confessa: é-o na sua aversão à ordem jurídica e à regulação estatal, no seu culto da identidade ou na substituição da discussão política pelos valores morais; e, finalmente, porque se alguém tivesse então falado do casamento homossexual, das quotas de género ou da conciliação entre o trabalho e a família – justamente quando se previa a abolição concertada do casal, dos géneros, do trabalho e da própria família -, teria sido perseguido sem piedade como um reaccionário dos mais recalcitrantes.»
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Caro Rui,
Ora ainda bem que “começámos” a “olhar” o Maio de 68 com agudeza critica e com o bisturi do historiador.
Os contributos “afectivos” são importantes para este “dossier” na medida que nos indicam que ainda há sobreviventes da Comuna (perdão: do Maio de 68) e que, para esses, aquele tempo (como para mim o foi, em Paris…) foi excepcional e soberbo de se viver! Nem mais.
Hoje, o trabalho é para os Historiadores, com os contributos daquelas disciplinas que importam para recentrar, que não rever, o acontecimento MAIO 68, no seu contexto e na exacta medida e importância acontecimental, para a História da França, da Europa (?) e do Mundo (?).
Zé Albergaria
Ambas as perspectivas (a interpretativa e a afectiva) são interessantes, sem dúvida. E não são incompatíveis.