
Deixei de frequentar «cerimónias comemorativas» de Abril. Sessões de reprise, quase sempre organizadas por pessoas com saudades de si próprias ou por autarcas com escassez de imaginação. Transformadas tantas vezes em dever. Repetindo, ano após ano, as mesmas palavras de ordem, as mesmas canções, as mesmas histórias, o mesmo cravo vermelho ao peito «que a todos fica bem». Sempre o que se me afigura uma idêntica, pesada e opressiva nostalgia. Aborrecem-me, admito. Aborrecem-me quase tanto quanto aborrecem a generalidade dos portugueses normais com menos de quarenta e oito anos. Transferi pois o 25 de Abril para a memória-cache, como parte central da minha vida e como âncora da memória colectiva que partilho. Como uma dobra, separando o que ficou para trás – a desigualdade como princípio, a vida triste, a fealdade no poder, o medo persistente como a caspa – de tudo aquilo que ali mesmo começou. Um campo aberto a sucessivos trilhos, a mil e uma quimeras, a todos os desígnios e precipícios possíveis e impossíveis. Mesmo aos piores. Prefiro por isso falar do 24. E de como a vida a 26 se tornou infinitamente mais trepidante, mais bela, melhor apesar de tudo. Graças a um 25 inesquecível para quem o viveu.
PS1 (a 25) – Estou a tornar-me repetitivo, eu sei.
PS2 (a 26) – Apesar do link se ir manter alguns dias nas Insinuações, não deixo de cruzar este post com este outro que escreveu Luís Januário.
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Boa noite Rui Bebiano,
Junto-me a si no visionamento da reprise e sem ter a sua capacidade de escrita digo-lhe que me “roubou” o tema do meu post para amanhã.
Um bom fim de semana…nomeadamente o dia 26
Aqui estou mesmo nos antípodas, Rui.
No 25, faço tudo como vem no folheto, irracionalmente.
Sem qualquer «pesada e opressiva nostalgia», creio eu…
Até que enfim divergimos em alguma coisa, Joana. Aquilo de que tenho a certeza é de que a maioria das comemorações-celebrações tem servido para afastar as novas gerações do interesse pelo 25 A. Prefiro lembrar como eram as coisas antes e como elas mudaram para melhor. E recordar episódios apenas com algumas pessoas que comigo viveram o tempo, aí sim. Talvez seja um pouco influenciado pelos milhares de alunos a quem já tive que falar da época e que mostram um ar de tédio de cada vez que o começo a fazer… Ou pela imagem que guardo das comemorações dos sobreviventes do 5 de Outubro.
Caro António P.: Mas afinal aqui não existem lugares reservados…
Caros Contertulianos,
É muito difuso, na verdade, esse signal de desencanto da geração que vibrou com a data e com os ideais nela exaltados.
Continuamente me aflora no espírito a velha canção de Trenet já aqui repetidamente evocada.
Ver figurões a celebrar ideais despudoradamente negados e a perorar sobre mentiras erguidas em sua substituição, custa imenso.
Compreendo aqueles que genuinamente, como os meus saudosos pais, enquanto foram vivos, cumprem o ritual do desfile na Avenida. Mas já não encontro estímulo para tal.
Talvez aqui já seja uma espécie de Vencido da Vida, passe a presunção da comparação, que não do sentimento.
Que reste-t-il, na verdade, desses ideias despedaçados ?
E como reverter este, ao que julgo, dominante sentimento, na presente sociedade portuguesa ?
Que outro Abril nos possa redimir de tanto erro, de tanta decepção sofrida !…
Devo dizer que não partilho de modo algum desse desencanto. De modo algum. O que me parece é que os valores centrais do 25 de Abril foram fixados no nosso ADN. E não precisamos andar sempre aos vivas ao nosso próprio ADN.
Ontem tive um pensamento semelhante… belo post, subscrevo.
Não será, antes, o formato comemorativo, rebarbativo, lamechas e, aqui e acolá saudosista e até “revisionista” da história?
Em França, o 14 Juillet, do bal muset e do muguet, continua a comemorar-se, mas como uma festa popular, nos bairros, nas ruas, e etc., data cheia de marcas históricas, mas recordada em festa (quase como os nossos santos populares…).
O que falta, em minha opinião, a esta nossa maneira triste de comemorar a data, a nossa, do 25 de Abril é isso mesmo: a Festa e o Sagrado que estas datas têm…ou devem ter…ou, se não têm…morrem!
Zé Albergaria
NB – Recordem-se, como estão, actualmente, as comemorações do 5 de Outubro!…moribundas.
Lembram-se, os mais velhos, sabem-no os historiadores, durante o fascismo – a importância e grandeza que tiveram!
As comemorações, de datas, de acontecimentos (as vitórias em guerras, batalhas, disputas desportivas…milagres) são o que são e, que me recorde, são as que estão inscritas na natureza, e nas datas respectivas (equinócios, solestícios…), e que adquiriram uma dimensão sagrada…perduram!
E o fenómeno do 13 de Maio em Fátima?!…
Não há, em meu entender, drama algum nisto que está a ocorrer e nas contradições que as várias abordagens ao tema, comemorações do 25 de Abril de 1974, 34 anos depois, suscitam.
O fluir da história é assim mesmo e, da História, ninguém é dono!
O Festival do post anterior foi antes do 26 mas também parece trepidante…
O 25 de Abril deu-me a capacidade de sonhar. A 26 de Abril dei por mim a perdê-la aos poucos num rasto que um dia acabará por se apagar. E o que o 26 de Abril precisa é de muito mais que comemorações institucionais e dispersas. E ao contrário de muitos, acredito que as instituições públicas, o estado, de um modo ou outro, melhor ou pior, cumprem a sua função. É entre nós, o dito povo, que o 25 de Abril está morto e enterrado. E se falamos dele somos saudosistas, nostálgicos e estamos fora de moda. Colectivo? Isso já não existe. Há muito.
Um abraço nostálgico. De quem tem menos de 48 anos mas mais de 34.
O 25 de Abril não «morreu», de forma alguma, senão não estaríamos aqui a conversar desta maneira e com a pluralidade que é possível. Uma certa forma de o «festejar» que nada tem de evocativo mas de estritamente nostálgico – e geralmente de pessimista, ou, pior, de oficioso – é que se vai diluindo. Felizmente, diria.
Já agora: o «colectivo» não existe nem jamais existiu, no sentido que julgo lhe atribuiu. Como projecto «de massas». Eu falava da memória colectiva, que é outra coisa.
Tem toda a razão, caro Rui Bebiano, quando fala da memória colectiva. Mas essa, creio, manter-se-á incólume mais que não seja nos livros de história. Quanto ao ‘colectivo’ não passou de mera tentativa no pós 25 de Abril pelo que efectivamente nunca existiu. Confesso que li o seu texto um pouco na perpendicular e em plena viagem de porto em porto pelo que acabei por não fazer justiça às suas palavras. Foi involuntário. As minhas desculpas, cumprimentos.
P.S. – O 25 de Abril não terá morrido. Evoluiu e fez-se adulto, diria. O que morreu foi o extraordinário significado transversal a toda a sociedade portuguesa que teve e que, quanto a mim, terá morrido na memória do povo. É o mesmo que crescermos esquecidos de parte fundamental das nossas raízes. Digo isto sem saudosismo e muito menos pessimismo. É o que sinto aqui e ali.
Primeiro so um comentario ao Jose Albergaria o 14 de julho em França é baile musette e fogo de arificio, o “muguet” é no 1° de Maio…. e esta quase…. Quanto ao 25 de Abril estou de acordo que devia ser uma festa, uma festa a serio com baile ou sem baile mas uma festa com cravos porque não???? mas uma coisa é certa não devemos esquecer…. como era antes do 25 Abril é importante e devemos contar aos jovens como era… e isot não é saudosismo é so que não quero para os meus filhos netos e outros descendentes o 24 de Abril, não mais Aljube, não mais Caxias, não mais Peniche …… quero para nos e todos os nossos descendentes Liberté de penser, de s’exprmer, liberté tout court…..
Finalmente, estamos de acordo nalgumas coisas.
Não verbalizei a questão do mesmo modo; porém, o meu “post” de hoje, no meu “blog”, versa o tema. Não é preciso conferires.
Abraço
[...] sobre o feriado de amanhã: 25 de Abril! Nada a dizer. Apenas aconselho a leitura do post do meu Prof. de Temas de Hist. Contemporânea acerca do feriado de amanhã. Pelo menos este ano [...]