Dupla personalidade

Não há muito mais para dizer sobre a posição frouxa do Sr. Silva durante a visita à Madeira. Onde, de sorriso nos lábios, contemporizou com o colérico soba local na desqualificação agressiva desse «bando de loucos» que tem a suprema ousadia de se opor à sua administração populista e prepotente. O Presidente Cavaco, aquele cavalheiro discreto, de atitude aparentemente equidistante, carnes secas e pose indulgente, que nos habituámos a ver à distância nos últimos tempos, voltou a recordar-nos o homem sisudo, inflexível, sem dúvidas ou enganos, que foi o primeiro chefe de governo da III República totalmente liberto da «mácula» de ter resistido ao regime que Abril fechou. O conformismo cultivado durante a juventude deixa sempre marcas para o resto da vida.
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Compreedo e partilho a irritação mas atrevo-me a sugerir outra abordagem.
Cavaco é pessoa contida e, estou certo, considera Jardim um louco capaz das maiores boçalidades.
Estando Cavaco investido da dignidade de Presidente não pode arriscar um vexame na Madeira, que forçaria uma retaliação de consequências imprevisíveis.
Não podemos pedir a Cavaco que vingue, de súbito, a condescendência do regime durante 30 anos.
Não se trata de Cavaco se armar em «líder da resistência democrática». Nem tal coisa se esperaria dele. Trata-se apenas de exigir o respeito devido à própria função presidencial. Que, entre outras coisas, tem o dever de defender a manutenção de regras equilibradas do jogo democrático. Tão somente. Outra atitude apenas pode corresponder a uma forma de cobardia. Todos os grandes líderes - não é este o caso, obviamente - algumas vezes nas suas vidas públicas tiveram a necessidade de se mostrarem «inconvenientes». Foram quase sempre esses actos a engrandecê-los.