Ruído no anfiteatro

Todo o país viu as imagens e fala no caso da agressão da aluna da Carolina Michaëlis à sua professora de Francês. A atitude é de unânime condenação, embora eu desconfie que alguns estudantes da faixa etária da agressora possam considerá-la uma heroína e, em certos casos, tenha já «molhado o pão» no apetitoso lombo de outro infeliz docente (ou, pelo menos, tenha sentido uma quase-irreprimível vontade de o fazer). Têm sido distribuídas as culpas por toda a gente, colocando-se por vezes a agressora – que não deixa de o ser pelo facto de não ter batido na cara da professora – numa posição protegida de «vítima do sistema» que lamentavelmente perdeu a compostura. Sem querer insistir no que tem sido dito (um largo leque de posições pode ser encontrado na caixa de comentários de um post de Daniel Oliveira), chamo a atenção para algumas coisas que me perturbaram particularmente e que estão para além da agressão em si. São elas a cumplicidade ou a inacção do conjunto da turma, a falta de uma reacção decidida da professora, a não-apresentação imediata de queixa, a incapacidade da direcção da Escola para tomar medidas claras e prontas (e depois para esclarecer devidamente a opinião pública), a revelação de uma sucessão de casos análogos ou piores entretanto silenciados, o facto da esmagadora maioria das vítimas destes casos serem mulheres, o silêncio conivente dos pais dos jovens agressores (que terão a dizer disto as sempre tão buliçosas «comissões de pais»?). E ainda a real responsabilidade dos governos que têm vindo a retirar prestígio e autoridade aos professores.
O caso leva-me a reflectir sobre a minha própria experiência, e a falar aqui de um assunto que permanece tabu, ainda que falado entre dentes, com sinais de vergonha, por professores, agora do ensino superior, que não sabem o que fazer e começam também a temer o pior. Dou aulas numa universidade desde 1981, e, naturalmente, ao longo de todos estes anos tenho-me confrontado, na relação mantida com dezenas de milhar de alunos, com comportamentos muito diferenciados no espaço das aulas. Apesar dessa diversidade, e tendo conservado sempre uma relação nada autoritária com a generalidade deles, jamais tive o menor problema disciplinar. Tanto quanto sei, a mesma coisa se passava com quase todos os meus colegas (as raríssimas excepções ficaram quase sempre a dever-se a atitudes de incompetência ou de arbitrariedade). Quando começaram a suceder-se os problemas disciplinares nas escolas secundárias, estes não se reflectiram logo nas universidades, presumindo-se sempre que os estudantes entretanto «cresceriam» e manteriam já comportamentos responsáveis quando chegassem aos nossos anfiteatros.
Mas tudo mudou há cerca de dois ou três anos atrás. A verdade é que, após as sucessivas vagas de alunos com deficiente formação científica imposta por programas e métodos no mínimo discutíveis, começaram a chegar às escolas superiores estudantes com uma quase nula formação cívica e frágil capacidade de autoresponsabilização. E, pela primeira vez, eu e muitos colegas - com toda a experiência de anos de trabalho, com todo o prestígio que a maioria acreditava ter conquistado para a vida - começámos a ter problemas: alunos que conversam sistematicamente durante as aulas, que chegam atrasados todos os dias, que entram e saem sem uma palavra, que não desligam o telemóvel, que se dirigem ao professor de forma impertinente, que exigem facilidades confundidas com direitos sem cumprirem deveres, que em muitos casos nem sequer distinguem claramente as competências de quem ensina e as suas próprias obrigações. Falta o último passo que, ao que se vê, no ensino secundário há já muito tempo foi dado: transformar as aulas num campo de batalha. Este passo não é inevitável: quero acreditar que, a ser bem aplicado, o previsto sistema de tutorias possa ajudar a melhorar os processos de responsabilização e a articulação entre a vida e a escola, como quero acreditar que a ampliação dos cursos de 2º e 3º ciclo traga para a vida nas escolas superiores pessoas mais amadurecidas e tolerantes. Como acredito nos alunos interessados, empenhados e até afectuosos. Mas temo que, entretanto, algo de mau possa acontecer.
Claro que a maioria dos estudantes universitários - sei-o por tentar andar de olhos abertos e graças a uma sucessão de óptimas experiências pessoais - não se enquadra neste cenário de catástrofe anunciada. A maioria dos alunos do secundário, acredito, também não se adequará a ele. Só que aos outros, aos elementos de uma minoria a quem é permitido protagonismo, o sistema educativo em vigor e as políticas que estão a ser aplicadas, minando a centralidade do professor na escola como na sociedade, conferem um grau de manobra cada vez mais perigoso. Que o meio social envolvente observa demasiadas vezes com um encolher de ombros.
P.S. - Pouco deve interessar, em casos como aquele que desencadeou o actual debate, o desculpabilizador discurso pedopsi sobre o telemóvel enquanto prótese. A admissibilidade do seu uso imoderado começa quase sempre em casa e apenas é possível porque, daí até à escola, tem sido mantida toda uma rede de permissibilidade que não deixa muitos jovens perceberem (ou não os obriga a perceberem) que existe uma dimensão de sociabilidade moderadora da utilização lúdica ou produtiva da máquina, de qualquer máquina. Que há vida para além dela.





Sei na pele e no espírito o que “anda no ar”. Sentei-me num desses anfiteatros onde a sabedoria era escutada e respeitada, onde se nutria reverência e partilhavam as sementes da sabedoria…hoje na escola sinto o desalento…afinal as minhas experiências ou conhecimentos de nada servem para gerações onde apenas conta o materialismo dos dias…Chamem-lhe pessimismo, mas é preciso que se saiba que a escola pública irá por este caminho se quiserem continuar a ser cegos…
O que é que te leva a pensar que houve “incapacidade” da direcção da Escola para tomar medidas?… Do que sei, o Conselho directivo não tomou medidas, mas não estava incapacitado de o fazer. Os professores não podem achar que a disciplina cai do céu aos trambolhões ou que vão aparecer uns “polícias” escolares para fazerem o trabalho sujo. Não, a disciplina nas aulas é uma responsabilidade deles, e quanto é preciso actuar têm de o fazer. E não podem pensar/desejar que, quando há um aluno que está a perturbar a aula, eles estalam os dedos e transformam-no em sapo.
Excelente. É isto mesmo. E é verdade que não agridem os homens professores, mas as mulheres.
Muito, muito interessante.
O estado da educação, ou dever-se-ia dizer (?) o estado do mundo
A Câmara de Nova Iorque, EUA, decidiu combater o insucesso escolar pagando aos alunos do quarto e sétimo anos por irem aos exames e obterem boas notas.
Virginia Connelly, directora de uma escola no problemático bairro Bronx e que aderiu ao programa, sublinhou: «Estamos a competir com as ruas. Estas crianças podem ganhar 50 dólares ilegais por dia. Temos de fazer algo para contrariá-lo».
só um reparo: no post scriptum deixas a ideia de que não é importante reflectir sobre a forma como o telemóvel se associa à nossa identidade. ora eu acho exactamente o oposto: que deveríamos ir por aí para compreender o que se passou. o resto, o resto é o imenso que é a relação pedagógica. a preencher com as histórias de cada um.
A questão é importante, sem dúvida. Só que, a meu ver, acessória aqui, onde o problema da educação cívica para a responsabilidade é essencial. É também nesse sentido que falo de «uso imoderado».
De facto é um problema cada vez mais frequente (o caso do ruído nos anfiteatros).
O que é de espantar, é que se for algum professor a mandar calar, esses que se encontram em constante conversa criticam que o porque o professor é isto e aquilo; mas se for um próprio colega de turma, é porque é parvo e não tem “autoridade” para mandar calar os outros…
Esta questao ja existe ha muitos anos. O post e excelente e confesso que o video que surgiu no Youtube e de que tanto se fala atraiu a minha curiosidade, sobretudo devido a discussao que se gerou.
Como deve ser patente pela ausencia de acentos no meu texto, resido no estrangeiro. Apesar de ainda ter pouca experiencia docente, assisti e/ou dei aulas na Suica, na Belgica e nos Estados Unidos (do secundario ao universitario, por vezes em instituicoes ditas ‘de elite’). E verifico um fenomeno muito semelhante.
Hoje em dia, a escola em geral e os professores em particular encontram-se claramente em competicao com um mundo super-povoado de atraccoes e solicitacoes.
A conclusao a que cheguei foi a seguinte: se quero manter a ordem e o interesse dos alunos quando estou a dar uma aula, seja em que pais for e SEJA A QUE NIVEL DE ESCOLARIDADE FOR, tenho que ser um show-man. Um verdadeiro entertainer, como se fosse um programa de televisao. Tenho que dar redea curta aos alunos para os conseguir manter na ordem (e esse respeito por vezes “militar” ganha-se nas 2-3 primeiras aulas!), mas sobretudo tenho q gerir a aula com altos e baixos na atencao dos alunos e criar momentos de relaxamento e repouso, quais “pausas para anuncios” da escola moderna.
E eu acho que o problema esta todo ai. A escola nao devia ser um lugar vocacionado para o entretenimento dos petizes. Os professores nao deviam ter que ter vocacao para apresentadores de programas de televisao. Nem para militares. A missao das escolas sempre foi, prioritariamente, “ensinar”.
Mas durante quanto tempo mais se podera resistir neste contexto?…
PS: O autor do texto nota e muito bem que o fenomeno do ruido e da perca de respeito se comeca a estender a Universidade. E lamento dizer que isso e apenas inevitavel, quando a materia-prima da Universidade sao, por exemplo, estes alunos de uma das escolas secundarias menos mas da segunda maior cidade de Portugal…. (nao estamos a falar de uma escolinha de provincia qualquer!)
Concordo consigo quando diz que o professor-entertainer é aquele que tem menos problemas e que com maior êxito consegue conservar a atenção dos alunos. Ao mesmo tempo, o professor que fala num monólogo de cima para baixo está perdido. O problema, como diz o outro, «são dois»: 1) Que fazer com a imensa maioria que é incapaz de uma coisa ou da outra?; 2) As aulas devem centrar-se numa espécie de one-man/woman show que acima de tudo deve divertir?
Apenas questões para o ar. Caminhamos para as 3 da manhã e não são horas para ensaiar grande teorias. Obrigado pela opinião/testemunho.
De acordo. Só é pena escapar a relação entre o comportamento público dos professores (e adultos em geral, mas professores em particular) face à ministra e esta cena no fim da «semana de luto». Até o uso de tlmvs é comum. Mas isso destoaria das sentenças e da moralina do blog, realmente.
Na primeira aula anuncio logo que cada toque de telemóvel acarreta a penalização de um ponto na nota final. Funciona.
Entrei na Universidade em 1993, e o primeiro choque que tive, imagine, foi exactamente esse de ver os alunos mais velhos (naquelas aulas teóricas onde era comum a mistura de caloiros e repetentes) levantarem-se a meio da aula e saírem sem dizer água vai.
Eu ficava perplexo, a olhar, ora para a grandessíssima lata do colega, ora para o professor, à espera de uma espécie de reacção bombástica deste; e, comigo, outros alunos caloiros para quem aquelas atitudes eram impensáveis.
Mas, afinal, os professores não diziam nada – e deduzíamos que, no fim de contas, seria uma prática corrente, desde que não se fizesse barulho: em curto espaço, passámos a fazer o mesmo (não me quero armar em bonzinho, mas nunca tive lata para isso; soava-me a falta de educação e ponto final).
Até que um de nós foi surpreendido por um professor que parou a aula e perguntou «onde pensa que vai?; se sair marco-lhe falta»: o rebelde sentava-se, muito corado, e os mais velhos explicavam-nos no intervalo que «este professor é dos que não deixa sair antes do fim».
E pronto, ninguém abandonava essas – mas só essas – aulas a meio.
O ideal seria o professor não ter que explicar o óbvio, mas dado não vivermos no mundo ideal, paciência.
Não é verdade que os docentes agredidos sejam apenas mulheres, conheço vários casos de professores homens vítimas de agressões graves. São uma minoria, é certo, mas a maior parte do corpo docente é constituído por mulheres.
Na faculdade onde me licenciei e pós-graduei nos anos 90 era impensável o que no comentário anterior se menciona. Apenas assisti a cenas frequentes do mais elementar desrespeito pelo professor universitário no ano lectivo 1992-93 em que estudei em França, como aluna Erasmus. Os colegas estudantes entravam e saíam das salas sempre que lhes apetecia, conversavam em voz alta como se estivessem no bar, era-lhes indiferente que um professor estivesse ou não a tentar dar uma aula.
O que acontece em alguns países da Europa já há algum tempo (recordo que a profissão docente está tão describilizada que na Bélgica e em Inglaterra há anúncios de emprego nos supermercados a pedir professores para escolas públicas, dos Ensinos Básicos e Secundário) está agora a sentir-se de forma alarmante em Portugal. Com a agravante das turmas indisciplinadas não serem uma minoria, bem pelo contrário. a minha experiência de quinze anos como docente do Ensino Secundário ensinou-me que só as turmas A e B, as turmas de elite, não têm problemas. E que tem feito o Ministério da Educação perante isto tudo? Enxovalha os professores na praça pública e inventa um novo Estatuto do Aluno que premeia a cabulice e o absentismo.
Olá. Partilho consigo a experiência de docência no ensino superior embora o tenha feito apenas durante 7 anos.
E embora a sua indignação se compreenda, gostaria de lhe fazer as seguintes perguntas:
Já se equacionou o quanto dependem os professores da formação que lhes é dada na universidade?
Já pensou que alguns dos seus alunos irão ser no futuro também eles professores?
Qual é a sua opinião sobre o papel dos professores universitários e das instituições em que trabalham na formação das novas gerações de professores?
Não se trata propriamente de uma indignação, mas do levantamento (ligeiro, claro) de um lado do problema que não tem sido referido.
A formação pedagógica da larga maioria dos professores universitários (incluindo a minha) é nula, dependendo quase sempre a sua atitude neste campo da experiência, do esforço e das características pessoais de cada um. Mas, neste caso, até nem é essa a questão central.
Sobre as outras perguntas, mau seria se não questionasse de vez em quando aquilo que faço há 27 anos. Mas vale dizer que a realidade - dentro e fora da sala de aula, dentro ou fora da escola - foi sempre mudando bastante.
evva, como sabes, frequentei com mais ou menos 10 anos de diferença a mesma instituição que tu. e curiosamente tive a mesma reacção perante o estado da arte em frança (no caso, na sorbonne…).
também tive os meus momentos de criancice na faculdade, sobretudo no 1º ano. mas o respeito, que aprendi em casa (não na escola) a ter pelos professores (mesmo os mais execráveis, que os há, em todos os níveis de ensino), manteve-se como um valor, e não posso dizer que tenha visto grandes episódios de indisciplina na nossa faculdade.
curiosamente, os episódios mais estranhos que vi foram protagonizados por erasmus (que dormiam nas aulas e coisas quejandas).
em frança, choquei de frente com cenas impensáveis. um telemóvel que vibra, com um aluno que se levanta discretamente para o atender não é, creio, sinal de desrespeito. estamos a falar de adultos, em princípio capazes de discernir se o telefonema vale ou não a pena. debicar umas bolachas porque não se tem intervalos não me parece ser nada do outro mundo.
descalçar-se e pôr os pés em cima da cadeira; passar aulas inteiras a trocar mensagens e a rir no fundo da sala; não atender a horários; fazer bolinhas de chiclet a estalar ruidosamente; não olhar a estatuto nem a reverências. tudo isto vi na sorbonne; a sorbonne está assim.
eu não quero que a nossa “casa” fique assim.