Da banalidade do perdão

Pedir perdão servirá de alguma coisa? Rebobinar o filme da história e reconhecer que os do nosso sangue erraram, ou agiram de uma forma medonha, só aos ignorantes e aos hipócritas pacificará as consciências. As crianças aborígenes das «gerações roubadas» jamais reaverão a infância que a natureza lhes havia destinado. Mas pede-se-lhes desculpa e pronto. E ponto. Como se pediu já, vezes sem conta, aos descendentes dos índios americanos contagiados e massacrados, dos judeus errantes reduzidos a cinzas ao longo de séculos, dos escravos que sobreviveram à medonha viagem transatlântica. Um dia pedi-la-emos também aos netos dos africanos que não morreram exaustos junto às margens das praias peninsulares. E, tolhidos pelo arrependimento, continuaremos distraídos perante o trabalho macabro que nunca pára. Lá longe, entre remotas gentes ou fora da nossa vista.

8 Respostas

  1. É um lado da medalha. Mas o outro lado é não fazer nada e se pedir desculpa não desfaz o passado pelo menos ao reconhecer o erro deveria impedir de o repetirmos. Pelo menos de forma exactamente igual.

  2. Belo aponatmento, Rui.
    De tão ocupados que andamos ( alguns ) a pedir desculpas não vemos o presente e não preparamos o futuro.
    Bom fim de semana

  3. A responsabilidade não admite perdão. É por isso que responsabilidade não é sinónimo de culpa. Porque a culpa, apesar de parecer uma palavra mais grave, é fácil de limpar: basta pedir desculpa. Ou perdão. A responsabilidade é eterna e não há arrependimento que lhe alivie o peso. Há que aprender a viver com isso e a fazer diferente, se não formos, claro, ignorantes ou hipócritas.

  4. Agir com a consciência da violência e pedir perdão depois é a mesma banalidade, A banalidade do mal.

  5. claro que concordo mas não subscrevo. é um dos lados da questão. revejo-me mais na resposta do Fernando. e pedir desculpa serve sempre de alguma coisa. reposiciona-nos em relação aos outros. é claro que parece ridiculo, principlamente quando visto de longe. mas para a comunidade que foi objecto do pedido de desculpa talvez este gesto simbólico seja mais do que uma hipocrisia.

  6. Foi muito curioso ler o artigo de JPPereira, no Público, sobre o mesmo assunto, depois de ler este texto.
    Bem diferentes.

  7. A ideia da punição até à enésima geração é bizarra mas tem feito o seu curso ao longo dos tempos.

    A convicção (hoje em dia, óbvia) de que não somos responsáveis pelo que fizeram as gerações anteriores, deverá levar-nos, sem receio disso, ao inverso:
    Não termos de nos sertir orgulhosos por aquilo que os antepasados tenham feito de meritório.

    Palpita-me que pouca gente estará disposta a aceitar a segunda conclusão…

  8. Eu acredito no perdão. Que devemos pedi-lo. Que vale a pena.
    Claro que há muitas formas de pedir perdão e nem todas são autênticas. Contudo, devemos pedir perdão e agir no sentido de não repetirmos os mesmos erros. Lamento ter esta ideia tão cristã do assunto, sobretudo quando o cristianismo sabe tão mal pedir perdão. Contudo, é o que acho que está certo,

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