Vício solitário

Dentro do grupo dos fumadores, faço parte de uma minoria que vai ser especialmente oprimida a partir do dia 1 de Janeiro. Acontece que gosto de fumar mas não sou viciado em tabaco: fumo apenas enquanto leio ou escrevo, no final de uma refeição mais forte ou demorada, em alturas sociais como jantares de amigos, aniversários, casamentos ou funerais. Além disso, pergunto sempre se incomodo antes de acender o cigarro, a cigarrilha ou um ocasional charuto, e jamais o faço em reuniões ou salas-de-espera, ou perto de crianças e de idosos não-fumadores. Depois não «travo o fumo», não o engulo, saboreio-o simplesmente, expelindo-o devagar e, por vezes, limpando com as mãos a nuvem que se forma. Um maço dá-me assim, à vontade, para três ou quatro dias. Na verdade fumo «culturalmente», levado, como acontece com todos os que fazem parte desta minoria, apenas pelo gosto genuíno de fumar e pela memória preservada do gesto. Parece-me assim injusto – além da nada razoável – que um hábito educado e pacífico passe a ser tomado como novo «pecado do vício solitário», execrado pelos moralistas de turno. Mas não me espantarei se estes vierem dizer-nos que provoca a cegueira, causa a impotência e conduz ao inferno.

2 Respostas

  1. Para si é um acto educado e pacífico porque o tornou assim, porque respeita quem está por perto.

    Mas a generalidade dos fumadores que proliferam por Portugal optou por outro tipo de hábitos e essencialmente por causa de essa generalidade que se chegou ou ponto de legislar sobre o hábito.

    Eu, que pertenço à minoria oprimida até 31 de Dezembro de 2007, vou finalmente poder comer, ler ou escrever num local público descandadamente sem ter de mudar de local a meio de qualquer uma dessas actividadee pacíficas.

    A mim nunca nenhum fumador perguntou se não me importava que fumasse e alguns até insistem em enviar o fumo para cima de mim e de outros que se encontrem por perto bem como para cima das crianças que se encontram por perto e que, por diversas vezes parecem ser os seus próprios filhos.

    Há locais que são tão pequenos que o fumo fica lá concentrado por demasiado tempo e em que em dias de grande movimento se torna insuportável apenas respirar (sems equer pensar nas consequências) e, já trabalhei num desses locais sem saber muito bem o que fazer, a minha posição não me permitia pedir para apagar cigarros ou para mudar de local. Parecia-me deveras injusto.

    Neste caso não há uma opção que seja justa de igual modo para ambas as partes e optou-se por proteger a parte que estava numa posição mais inconveniente e que sofria as consequências mais negativas. A curto prazo os fumadores vão ser prejudicados mas, a longo prazo irá ser feito um ajuste pois os proprietários de estabelecimentos com maior espaço muito provavelmente optarão por mais cedo ou mais tarde cuidar para que os fumadores possam fumar dentro dos estabelecimentos em zonas a eles reservadas.

  2. Muito a semelhança do cachimbo. Somos 2.

    50 g de tabaco dão-me para 15 dias.

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