High-Tech trash

Percorridas as 627 páginas de Rio das Flores, o novo «romance histórico» de Miguel Sousa Tavares, preparava-me para anotar duas ou três impressões quando o leitor de feeds do Bloglines me avisou de que n’A Invenção de Morel tinha acabado de sair uma pequena nota crítica sobre o livro. Esta acabou por aliviar-me bastante do esforço de dizer qualquer coisa de inteligível sobre uma obra cuja leitura, pesadas as coisas, me aborreceu muito mais do que me agradou. A verdade é que, conhecida então a opinião de José Mário Silva, não posso senão concordar inteiramente com ela e recomendá-la.

Acrescento-lhe, porém, um brevíssimo comentário, servindo-me de uma afirmação produzida pelo autor durante uma entrevista publicada, a 20 de Outubro último, no suplemento Única, do Expresso. Declarava aí MST que «finalmente estou a tornar-me um escritor». Um escritor sim, sem dúvida – um romancista também, pois era isso que certamente pretendia dizer –, mas um escritor que convive com um equívoco. Ao pretender escrever de uma forma «inteligível», que possa ser compreendida sem dificuldade pelo leitor comum, aquele sem cultura literária e sem o hábito de ponderar o valor de uma obra de outra forma que não seja pelo interesse que lhe desperta a história que esta conta, MST põe de parte a procura da forma única, original, do texto irrepetível, que separa a chamada grande literatura daquela que, embora legítima, se limita a reproduzir estereótipos e se destina apenas a um público que não é muito exigente nas suas escolhas. É isso que o conduz, por exemplo, a perder-se em longas páginas descritivas com as quais pretende fazer o enquadramento histórico de determinados episódios, redigidas sempre de uma forma bem informada mas incomodativamente escolar. Muitos leitores, porém, entenderão esta característica como uma qualidade.

Apreciei bastante Sul e razoavelmente Não Te Deixarei Morrer, David Crockett. Gosto do Miguel Sousa Tavares cronista e «grande repórter». Gostaria que ele pudesse investir mais naquilo que faz realmente bem, por vezes muito bem. Mas se lhe dá prazer escrever uma coisa assim, olhar para a capa de Equador e ver que este vai na 32ª edição portuguesa, acompanhar José Rodrigues dos Santos e Fátima Lopes nos mesmos escaparates flamejantes, ser visto com concupiscência (literária, claro) por balzaquianas típicas ou frequentadoras da Nails and Beauty, quem sou eu para lhe reprovar as intenções? Nada tenho contra a chamada literatura light, e reconheço que esta preenche um espaço de interesse pelos livros e pela leitura que é inteiramente respeitável e até necessário. Principalmente quando quem a pratica é competente e não amarfanha a gramática, como é o caso. Mas já não me parece bem que ela passe por aquilo que realmente não é.

8 Respostas

  1. Desconfio de tanta excitação à roda desta literatura de gente tão mediática.

    Também li o Sul e gostei. Mas já não fui atraído para o Equador, justamente pela inesperada exaltação que ele provocou.

    Embora reconheça a competência de MST como jornalista e simpatize com a sua postura ética, do melhor que subsiste hoje na grandemente desqualificada Comunicação Social, ainda não me convenci dos seus méritos de romancista, para ser arrastado para a sua leitura.

    Para com Rodrigues dos Santos, a relutância é ainda maior, pela sua técnica manhosa de suscitar leitores, carregando forte no erotismo demasiado óbvio, como li nalguns excertos que apareceram aí nos blogues.

    De igual modo, fico espantado com tanta edição sucessiva de livros extensos, num país pouco ledor, de fraca motivação cultural.

    Enfim, pode ser que ainda mude de impressão, se lograr vencer a presente relutância ante literatura tão fortemente mediatizada.

  2. Li “Sul”. Como causa o meu interesse sobre o acto de viajar, sobre o que nos leva a partir, a viajar, o turismo, o olhar do e sobre o outro. Do encontro de autóctones que, afinal todos somos. Depende do local onde se esteja. Confesso o mesmo gosto sobre “Sul” de Sousa Tavares. Gosto do contador da viagem, das imagens, das gentes. Gosto e ponto final. “Equador” surge nas leituras pelo mesmo motivo e não pela polémica sobre os diferentes aspectos anacrónicos, que povoavam inicialmente a narrativa, devidamente reconsiderados pelo autor, após a conhecida polémica. Mas novamente porque fala de partir, do encontro com o exótico. Locais que hoje o designado turismo de massas “vende” ou propõe, como se queira por esse mundo fora. E a ideia de romance histórico atravessa-se nesse caminho. Não me perturbou. Embora a ficção me tenha parecido a caminho do volátil. Coloquei-o na estante dos livros sobre e de relatos de viagens, junto de outros. Ao último confesso apenas leitura rápida da badana. Pareceu-me pacóvio, tal como essa outra definição de badana. O mediatismo é moeda de troca. Só vende, se soarem os clarins. Sinal do tempo em que se vive. Mas prefiro igualmente que leiam a que não leiam. Embora desconfie que muitos apenas o transportem debaixo do braço para apenas…outro sinal do tempo que corre. Mas isso ao autor não interessa nada. Mas interessa à imagem que os outros fazem de nós. Provavelmente. Embora, não gostasse de estar cá daqui a 100 anos, seria interessante conhecer o que sobrou desta espuma dos dias…em que vivemos, vivos. O meu problema Rui, não é vencer a relutância, que partilho, o meu problema é outro. É ousar gastar onde não devo quando, no que devo, me sobra pouco para gastos supérfluos. Até.

  3. Não posso fazer ainda um comentário sobre o novo romance de Miguel Sousa Tavares porque, simplesmente, ainda não o li. Mas Equador, que li e guardei na prateleira, não foi, para mim, uma leitura de castigo. Mas pareceu-me uma prova de esforço para o escritor. Prefiro mil vezes as maravilhas de Sul, de que gosto mesmo muito. A versão ilustrada está sempre ao meu alcance, e volto a ela muitas vezes. É fácil sonhar com Sul e partir por esse mundo fora.

  4. Inteiramente de acordo em relação a Sul, o que apenas confirma que MST sabe fazer muito melhor. Além disso, também não li o livro com sacrifício, embora ele tenha acontecido em alguns passos.

    O que me parece, isso sim, é que este romance é pura literatura de entretenimento. Não vem mal algum ao mundo por isso, antes pelo contrário. Mas a «publicidade enganosa» deve ser rejeitada.

  5. Eu também gostei muito do Sul, que se bem o recordo, vem na senda do que se fazia na grande reportagem, e que era muito. Não li o Equador nem me parece que vá ler este aqui. Um livro que se lê muito bem, não é, muitas vezes, ou na maioria das vezes, um bom livro. Lê-se muito bem, como deixa-se comer muito bem. Mas parece que MST também sabe muito bem fazer isto, escrever livros enormes que fazem 32 edições.
    Literatura de entretenimento com o sentido pejorativo que dá a entretenimento é que me parece um contra-senso.

  6. Eu nunca dei um euro ao MST nem penso dar, só leio livros dele em bibliotecas e gosto (sem ser o equador).
    Li o Equador emprestado e esperei para o ler emprestado, foi o que menos gostei de ler dele mas lê-se bem. Mas faço questão absoluta de não o fazer ganhar um euro.

  7. Acabei agora de ler Rio das Flors – de facto, as páginas e páginas de História-contada- às-criancinhas são quase insuportáveis. Não se percebe se MST quer «instruir» os leitores ou, pura e simplesmente, «aproveitar» o material que reuniu para escrever o livro. Teria sido muito mais adequado se se tivesse limitado a contextualizar, histórica mas brevemente, os acontecimentos.
    Não me lembro de ter tido esta sensação com Equador – de que gostei.

  8. Acho que o que mais me chocou no Rio da Flores foi a inesperada pirosise que salpica o livro aqui e ali… Cresci a ler a Grande Reportagem e as crónicas do MST de Sexta-Feira no Público, li o Sul e o “David Croquet”. Nestes registos compararia o MST a autores como por exemplo o Luis Sepulveda que ainda sendo « popular » (o que muita gente – basta ler os comentários acima – considera ser pecado para um escritor, vá-se la saber porquê…) nos fazem viajar, no mais nobre sentido do termo. Ora em Rio das Flores, MST consegue-o com alguma frequência mas apenas para logo depois nos surpreender com uma frase feita, uma pirosise ou uma descrição vulgar (ainda cerro os dentes a pensar nas descrições das cenas de amor, brrr…). Foi também esta inconsistência que me irritou no livro. Mas diria na mesma que é um livro interessante e recomendaria a amigos.

Deixe uma Resposta

Tem de ter a sessão iniciada para publicar um comentário.