Les amis du peuple

Acabava de rever em DVD, muitos anos depois da primeira vez, La Chinoise, de Jean-Luc Godard. E, de repente, na pacatez da minha noite suburbana e burguesa, um monólogo que chega do passado:
«Sabemos que a revolução social não está ao virar da esquina e que as lutas a travar em cada momento são aquelas que o estado de consciência das massas permite. É através da luta pelos seus interesses imediatos e objectivos parciais que os explorados se unirão e organizarão para lutas superiores. Exige-se-nos um trabalho paciente, que não se compadece com radicalismos verbais. Porém, ao empenharmo-nos nessas lutas diárias, por reivindicações muitas vezes modestas, não perdemos de vista que a sua utilidade é incutir gradualmente nos trabalhadores a confiança nas próprias forças, o repúdio pela ordem capitalista, a consciência e determinação revolucionárias. São positivas as lutas que contribuem para pôr explorados e exploradores em confronto, não as que semeiam ilusões na colaboração de classes. Alertamos os trabalhadores contra a miragem de que uma espiral infinita de reformas transformaria gradualmente o inferno capitalista num paraíso socialista. Dizemos que conquistas verdadeiras só com lutas superiores podem ser alcançadas e que tudo depende de se criar um campo resolutamente anticapitalista.»





Você identifica bem tais ideias como vindas do passado. De um passado nada recomendável, diga-se de passagem.
Mas nesse manifesto do que resta do comunismo marxista-leninista-maoista existem muitas outras pérolas. Para essa gente, “a revolução russa e as outras grandes revoluções do século XX não cumpriram o seu projecto de desmantelar o capitalismo e estabelecer a democracia dos produtores”, afundando-se “em regimes burocráticos e ditatoriais” que implantaram “um falso socialismo”. Daí que tome em mãos “incutir nos explorados o desprezo pelos valores do regime (capitalista), alimentar-lhes a aspiração a um outro modo de vida, realmente democrático, liberto da opressão do capital”, e inspirando-se “nos revolucionários do passado” trabalhe “por aproximar a hora da emancipação dos explorados através do socialismo, que será também a libertação de toda a sociedade”.
O “verdadeiro comunismo” que defendem é um produto ainda mais falacioso do que o genuíno, defendido pelo PCP. Este, ao contrário daqueles novos-velhos arautos envergonhados, não renega o passado (ainda que admita erros e desvios), não teme designar-se por partido comunista, nem se inibe de nomear a ideologia inspiradora como sendo o marxismo-leninismo nem de identificar Marx e Lenine como os seus heróis revolucionários.
Falhada a tentativa de criação de um outro partido comunista através da revista Política Operária, tentam atingir os mesmos objectivos por esta via mais camuflada. Permanecem uns empedernidos praticistas, entretendo-se a criticar a realidade, que teima em não se moldar aos seus desejos benfazejos, sem questionarem a irracionalidade da fé com que aceitam a profecia messiânica marxista.
Acho, sinceramente, que este universo anacrónico não merece grande atenção, para além da curiosidade e, num ou noutro momento, de um certo efeito de flashback que consegue produzir. Há algo patético também, sobretudo em relação aos mais velhos dos seus activistas, para os quais não existe a desculpa de insistirem na pólvora seca não sabendo sequer onde fica a guerra. Os mais novos, esses imaginam, como sempre, que têm o destino da história nas suas mãos.