Outubro (4)

Veterano bolchevique e pioneiro em cartaz de propaganda das realizações da URSS
Mais um texto da série Outubro. Outros episódios: (1) - (2) - (3)
A expansão do ideal leninista de tomada e de conservação do poder fez-se, em larga medida, instrumentalizando a simpatia de um grande número de intelectuais, por regra activos e influentes nos seus países de origem, que ajudaram a disseminar um certo eco internacional da legitimidade, da grandeza e da apoteose de Outubro.
A intervenção inaugural de John Reed deu o tom. Em 1919, Lenine afirmaria mesmo que recomendava Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo, sem quaisquer reservas, aos trabalhadores de todo o mundo: «eis um livro do qual eu gostaria que se publicassem milhões de cópias em todas as línguas, (…) pois oferece uma exposição viva e verdadeira dos acontecimentos (…), permitindo compreender aquilo que realmente significa a Revolução Proletária e a Ditadura do Proletariado». A presença do jornalista americano no teatro revolucionário foi, porém, ainda uma excepção, uma vez que nos primeiros anos do novo regime era necessária uma importante dose de coragem para se circular por uma região em contínuo estado de guerra. E era também obrigatória uma formação política particular de modo a que, chegado o visitante de um universo muito diferente, pudesse entender aquilo que observava como algo de único e de transcendente.
No decurso dos anos 20 e 30, porém, as viagens pelo «país dos sovietes» tornaram-se uma espécie de moda, envolvendo figuras destacadas da literatura, do jornalismo e da política provindas de todo o mundo, principalmente de países europeus como a França ou a Grã-Bretanha. A essa vaga de viagens correspondia invariavelmente - tal como mais tarde acontecerá com os viajantes recebidos na China e em Cuba - uma torrente de artigos, ensaios, conferências ou livros produzidos na altura do regresso ao país de origem. Se bem que nem todos os testemunhos fossem apologéticos - alguns dos viajantes rapidamente se aperceberam de muitos aspectos negativos - a esmagadora maioria deles correspondeu a exercícios de admiração e de veneração, verdadeiros monumentos de hagiografia política a Lenine e a Estaline, a elogios à construção que se lhes afigurava inequívoca do «homem novo», às realizações monumentais do socialismo e a uma imaginária adesão total e entusiástica da população.
Um livro de François Hourmant, Au Pays de l’Avenir Radieux (2000), recolhe parte dessa tradição, anotando a existência de um padrão comum, preservado ao longo de décadas, a todos os relatos que procuraram descrever o regime soviético apontando-o como um exemplo único. Este padrão seria descrito através de uma narratio authentica (relativa a factos reais ou verosímeis, distinta da narratio ficta que apenas relata acontecimentos sobrenaturais ou inverosímeis), destinada a moldar um arquétipo que depois deveria ser confirmado: «os viajantes», afirma Hourmant, «deveriam legitimar o conjunto de representações, largamente idealizadas, por vezes maravilhosas (…), que esses textos haviam elaborado». A imagem de um éden vermelho instalado na Terra foi assim, de alguma forma, produzida e reproduzida por figuras como Pierre Pascal, Romain Rolland, H. G. Wells, Stefan Zweig, Bertrand Russell, Bernard Shaw, Henri Barbusse ou mesmo André Gide (antes de se haver tornado um «renegado»), e tantos outros.
Os fellow-travellers, os compagnons de route, recolhiam muitas vezes nessas viagens, cada vez mais meticulosamente preparadas e dirigidas pelas autoridades soviéticas, ou nos escritos que delas resultavam, publicados localmente por uma rede de influências centrada na iniciativa dos partidos comunistas, a fonte da sua admiração. Já no exílio, Trotsky, citado por David Caute em The Fellow-Travellers (Intellectual Friends of Communism), chegou a pronunciar-se criticamente contra a atitude dessa «intelligentsia ‘de esquerda’», com os olhos postos no leste, que se virava «não tanto para a classe operária revolucionária mas para uma revolução que considerava vitoriosa, o que não é a mesma coisa». Ou seja, mais para expectativas próprias que acreditavam haverem sido materializadas do que para a realidade do quotidiano pelo qual circulava como observadora. Em correspondência cifrada, e sem quaisquer rebuços, Lenine considerava os ocidentais capazes de papaguearem os dados sobre os «sucessos da URSS» que lhes eram impingidos como «idiotas úteis».
Muitos intelectuais do Ocidente aderiram assim a uma espécie de «religião secular» - a expressão foi utilizada por Raymond Aron em L’Opium des Intellectuels, de 1955 -, que descobriram na intervenção do poder soviético, agora dirigido já por Estaline, o supremo e inquestionável oficiante. O núcleo central desta «religião» giraria entretanto, na opinião de Caute, em torno do conceito de Revolução. Não uma qualquer revolução, mas «a Revolução» que se consubstanciara em Outubro, inaugurando uma infinita era «de progresso, justiça social, racionalidade científica, paz e igualdade, num Estado dos trabalhadores».
Ao longo dos anos 30, com a estabilização do regime, o alargamento da intervenção do Estado e o capital de simpatia advindo do facto da «pátria dos sovietes» parecer ser então aquela que mais decididamente se opunha aos fascismos emergentes - até ao pacto germano-soviético de 1939, ponto de viragem que para muitos abalou definitivamente a crença na «utopia terrena» dirigida pelo «pai dos povos» -, a quantidade e a própria dimensão dos périplos aumentaram. Agora com um cuidado particular mantido na organização dos pontos a visitar, na aparente eficácia do seu funcionamento, mesmo uma certa «ostentação de riqueza» (segundo Hourmant) que tornava os visitantes, já de si predispostos a ver maravilhas em todo o lado, em presas fáceis da propaganda. Aliás, esta predisposição era tal que até os «campos de reeducação» (aqueles que podiam ser mostrados, como o de Bolchevo, criado por Dzerjinski) ou as enormes filas de cidadãos que sob temperaturas negativas tentavam obter produtos de primeira necessidade, surgiam, nos relatos, como factores positivos, enunciando uma disciplina indispensável ao processo de construção do «homem novo».
Com ligeiras variantes, esta foi a situação mantida praticamente até ao desaparecimento da União Soviética, associada embora, a partir dos anos 60, a um crescente fluxo de viagens organizadas por «partidos irmão», sindicatos, «associações de amizade» ou mesmo agências de turismo. O padrão do viajante mudou parcialmente, mas o sentido pedagógico do seu envolvimento local em pouco foi sendo alterado.
A literatura directa ou indirectamente ligada aos partidos filiados na linha dominante do movimento comunista internacional, bem como, com o aparecimento do maoísmo, à parte da esquerda radical que via no «revisionismo» pós-Estaline uma traição ao modelo edénico divulgado até à década de 1950, servia-se a todo o momento desses ecos de uma pátria «do futuro radioso» cuja simples existência deveria funcionar como exemplo e como um estímulo para todos aqueles que se empenhassem no combate por uma sociedade melhor e mais justa. Em Portugal, é fácil encontrar na colecção do Avante!, bem como, a partir do seu aparecimento, na imprensa dos grupos autodesignados «marxistas-leninistas», as marcas dessa atracção. Ainda em 1973, no seu Viagem à União Soviética e outras páginas, Urbano Tavares Rodrigues cristalizava, num único instante e num único local, esse conjunto de elementos que deveriam possibilitar o vislumbre da história integral da própria humanidade: «Na Praça Vermelha está toda a psique de um povo, estão os monumentos fabulosos (…), estão séculos inapagáveis de história, a ‘Santa Rússia’ de outrora, a Revolução, a sociedade socialista de hoje, a memória da guerra, a fé no amanhã, tudo». A publicação Vida Soviética, revista de propaganda editada já depois de 1974 - com artigos sobre os êxitos de produção dos kolkhozes, rostos sorridentes de raparigas loiras ceifando o trigo e a conduzirem tractores, ou imagens exaltantes do poderio militar e industrial - procurou ainda manter activa essa enunciação.
O peso desse imaginário no ocidente manteve-se aliás tão poderoso que, quando do êxito mundial do Doutor Jivago, o romance de Boris Pasternak vertido em filme por David Lean e estreado em 1965, e da publicação do Arquipélago Gulag, o livro de memórias do cárcere de Alexander Soljenitsyn publicado no ocidente em 1973, um grande número de críticos e de intelectuais, que nada tinham de proximidade política em relação aos partidos comunistas e ao modelo soviético, se recusou a aceitar a forma como o mundo saído de Outubro e o seu lado terrível aí apareciam ficcionados ou descritos. A forma como a sua imaginação os concebia era incapaz de suportá-lo.
A influência dessa imagem da URSS não derivava, porém, apenas da construção ficcional da realidade produzida e reproduzida pelos relatos de viajantes. Ela advinha também de uma percepção de que aquele modelo se definia como algo de radicalmente novo, capaz de redefinir o processo de intervenção humana na história e na própria natureza. Será deste processo que falará o seguinte episódio desta série.
(continua)
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Excelente texto.
Hoje, pode parecer-nos surpreendente como os convidados que visitavam a URSS relatavam o que lhes era mostrado. Do que não viam não poderiam falar, e do que viam só poderiam dizer bem. Teremos de situar os seus referenciais para não julgarmos levianamente como conscientemente coniventes com a peçonha os simples companheiros de jornada. Embora muitos fossem artistas ingénuos, “intelectuais” engajados ou, pelo menos, nutrissem alguma simpatia pela causa da revolução em geral (e a revolução estava na moda, não só com a revolução russa, mas com os outros regimes totalitários que despoletou, que também se afirmavam revolucionários), doutro modo não seriam convidados, os contrastes entre a nova sociedade e a do velho Império eram avassaladores, quer já na década de trinta, quer depois no período da guerra-fria. Pelo menos esse aspecto da nova sociedade teriam de testemunhar. Mas a propaganda não se limitava a comparações internas, o antes e o depois da revolução; a sua referência era o capitalismo ocidental, e o seu objectivo era mostrar a supremacia do comunismo.
O comunismo, o capitalismo de Estado monopolista, mudou radicalmente a atrasada sociedade russa, transformando-a numa sociedade moderna e aproximando-a dos níveis de desenvolvimento de algumas sociedades de capitalismo individual concorrencial de mediano desenvolvimento. Mesmo em termos de alguns valores sociais — a igualdade de direitos entre homens e mulheres, a garantia ou direito ao trabalho, a escolarização gratuita até aos mais elevados níveis, os cuidados de saúde e a segurança social, por exemplo — a sociedade soviética caminhava na vanguarda. Transformado o Estado no principal, e depois único, empregador, cabia-lhe a ele também fornecer todos os serviços. Menosprezada e contida a propaganda e a prática religiosas e destruída a autoridade patriarcal, substituídas pelo ideário de igualdade e pela moral comunista, para as jovens gerações a revolução era um Mundo novo; e, para os mais antigos, a nova disciplina da fábrica, que a propaganda associava à propriedade social, era bem melhor do que a permanente submissão à vontade dos senhores de terras ou dos antigos patrões capitalistas exploradores. A constante propaganda fomentava a ilusão de que na nova sociedade todos eram donos e actores do seu próprio destino; na realidade, os que faziam carreira no partido comunista eram mais donos do que os outros. E esse sentimento não poderia deixar de ser fortalecido pelo suor e lágrimas do custo em vidas humanas que tivera, primeiro na guerra civil e depois na grande guerra patriótica. O capitalismo teve tais méritos por todo o lado; mas na versão marxista de capitalismo de Estado monopolista ou comunismo ganhou outros encargos e responsabilidades.
O que a generalidade dos visitantes convidados não questionou foi porque só podia ver o que lhe era mostrado em visitas guiadas e porque não dispunha de liberdade para viajar pelo país (aliás, direito sonegado aos próprios nacionais, que não podiam deslocar-se sem visto para além dos limites administrativos correspondentes ao nosso concelho); e o que outros, mesmo adeptos, também não questionaram foi porque as visitas eram apenas permitidas a convidados (fora, claro, ao pessoal diplomático acreditado, ou, já mais tarde, reservadas ao turismo interno do campo socialista ou aos excursionistas patrocinados pelos partidos irmãos). Se fossem viajantes livres, veriam o desenvolvimento menos exuberante dos campos, das aldeias e das cidades do interior, as assimetrias entre repúblicas, as carências na habitação, as dificuldades no abastecimento, o atraso no desenvolvimento tecnológico, etc. Convidados ilustres ou simples adeptos também não se preocuparam com o regime policial nem com a sociedade totalitária, muito prosaicamente porque não viveram na sociedade vigiada e concentracionária. A uns, porque o curto tempo da visita não dava para medir essa dimensão social; a outros, porque estavam com a disponibilidade para a aceitarem como parte integrante da nova sociedade. E é esta fácil disposição das grandes massas para a aceitação de sociedades submissas, de liberdade sonega ou meramente tutelada, fazendo orelhas moucas à farsa dos processos de Moscovo e às notícias horripilantes do Gulag, que foi e continua sendo preocupante. Não só lá, mas por todo o lado, parece haver sempre gente que prefere ignorar.
updates: ficou desses tempos o pior. Actualmente só pode viver e trabalhar em Moscovo, por exemplo, quem tiver registo naquela cidade. Moscovo está cheia de clandestinos do Cáucaso, da Ucrânia, etc, que trabalham nas obras e nos empregos piores. Impera a burocracia, uma burocracia má (havê-la-á boa?), castradora, opressora. Impera a corrupção a todos os níveis, cada chefe de esquadra ou de repartição faz as suas leis, é difícil obter o documento mais simples se não se untar as mãos a meia dúzia de parasitas (como no tempo da URSS). É difícil viver, a não ser para os ricos e os mafiosos. Tudo o que era castrador e burocrático do outro regime ficou e agravou-se. Não há liberdade de imprensa, como no tempo da outra senhora, e grande parte da população continua a viver mal e, também, continua azeda, desconfiada e desumana.