Outubro (3)

Lenine e Estaline, acompanhados «à escala» por um antigo líder local, em Grutas Parkas (Lituânia)
O terceiro post da série. Podendo cada um deles ser lido separadamente, será o conjunto a dar um sentido mais completo a algumas afirmações e, principalmente, às dúvidas que elas podem invocar. Episódios anteriores: (1) - (2)
O leninismo não existiu, enquanto atitude e menos ainda como conceito, em vida de Vladimir Ilitch. Foi Grigory Zinoviev, o executado de 1936, quem popularizou o termo durante o Vº Congresso da Internacional Comunista (Comintern), que decorreu em 1924, cinco meses após a morte de Lenine. O Congresso coincidiu com a ascensão de José Estaline ao topo do poder na União Soviética, iniciando-se então a «bolchevização» (na prática, uma russificação) da Internacional e dos diversos partidos membros, tornando decisivo o papel do PCUS, e transformando a pátria de Outubro num «farol dos povos», a cujos interesses se deveria subordinar a acção revolucionária aplicada noutros pontos do planeta. O estabelecimento do culto de Lenine e de uma leitura orientada e oficial da sua obra foi decisivo para a afirmação desta mudança.
O conceito foi desenvolvido pelo próprio Estaline e sintetizado numa fórmula que consta dos Fundamentos do Leninismo, originalmente publicados, ainda em 1924, no diário Pravda: «o leninismo é o marxismo da época do imperialismo e da revolução proletária, ou, mais exactamente, é a teoria e a táctica da revolução proletária em geral, a teoria e a táctica da ditadura do proletariado em particular». Em 1931, esta ideia será precisada e desenvolvida em As Questões do Leninismo, onde Estaline definiria alguns dos vectores fundamentais da construção da União Soviética e do seu lugar na cena internacional, cristalizando, sob a capa do leninismo, ou do marximo-leninismo, um modelo rapidamente universalizado. Este centrava-se na defesa do papel capital da ditadura do proletariado, no lugar hegemónico e incontestável que nela deveria deter um Partido inflexível e monolítico, na caracterização da larga maioria da população dos campos como essencialmente contrária às mudanças revolucionárias, na possibilidade de se construir a experiência do socialismo real «num só país», e na assunção formal, por parte do Estado Soviético, da condução exemplar dos destinos da humanidade «no seu todo».
Nessa altura, como escreveu Boris Souvarine na biografia de Estaline publicada logo em 1939, tudo aquilo que ainda pudesse existir de «activo, relativo, condicional e dialéctico» na obra do fundador do Estado soviético, foi convertido em algo «passivo, absoluto, catequista e, além do mais repleto de contra-sensos». Nesta direcção, é curioso constatar a forma como, nos Princípios, Estaline caracterizava o «estilo leninista», definidor do seu modelo do «comunista ideal». Podemos segui-lo na sua inconfundível forma de pensar e escrever, privada de maneirismos ou subtilezas teóricas: «O leninismo (…) forma um tipo particular de militante, tanto no Partido como no aparelho de Estado, que desenvolve um estilo particular de trabalho, o estilo leninista.» Este deveria combinar o «élan revolucionário russo» com o «sentido prático americano». O primeiro seria «essa força vivificadora que desperta o pensamento, empurra para a frente, esmaga o passado, confere a perspectiva», enquanto o segundo deveria «ultrapassar toda a espécie de obstáculos graças à sua industriosa tenacidade». Ou seja, numa combinação equilibrada de violência criadora e de pragmatismo.
De acordo com o «pai dos povos», a essência do leninismo residiria então na fibra demonstrada pelo leninista ao levar à prática esta atitude. O leninismo não poderia assim sobreviver sem o leninista, um tipo especial de militante, «temperado em aço», voltado para a acção, dotado de uma tenacidade, de um «sentido da história» e da missão que nela desempenhava, que não se poderia desviar um milímetro das suas tarefas, ousando entregar-se à dúvida ou a atitudes que o pudessem valorizar como indivíduo e não como um elemento desse todo que a direcção do Partido e do Estado, como a uma máquina oleada, concebia e orientava.
Pode dizer-se que o essencial do modelo já havia sido desenhado pelo próprio Lenine, mas a novidade residia agora no seu entendimento, aplicado à actividade de todo o membro do Partido, como factor de coesão da direcção da sociedade. E, ao mesmo tempo, como instrumento de diferenciação e de combate a todos aqueles que, mesmo entre os próprios comunistas, pudessem escapar a essa configuração marmórea e inflexível.
Ao mesmo tempo, nas Questões, o papel da União Soviética num contexto mundial emerge como central. Vincula-se ao carácter tomado como exemplar da acção do Partido e do Estado, mas, acima de tudo, recolhe a sua força do próprio exemplo do acto fundador e revolucionário que lhes concedera a forma. Estaline insiste em que «a vitória da Revolução de Outubro marca uma viragem radical na história da humanidade», sendo, por esse motivo, «uma revolução da ordem internacional, mundial». Segundo o seu ponto de vista, encontrar-se-ia aqui a origem das expectativas criadas e da «simpatia profunda que as classes oprimidas de todos os países alimentam face à Revolução de Outubro, na qual elas vêm o penhor da sua libertação». Esta simpatia começará, naturalmente, pelos militantes dos partidos-irmãos, pelos sectores que tinham visto no bolchevismo um sinal de esperança numa ordem social mais justa, pelos muitos intelectuais sempre prontos a abraçarem uma utopia que, além do mais, parecia deter uma forte carga de humanismo. Todos eles capazes de entenderem a dimensão redentora e modelar dessa experiência radical, lançada no «país do futuro radioso» que Outubro inaugurara.
O próximo texto olhará este impacto.
(continua)
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[...] Bebiano já vai na terceira garrafa: Outubro é o tema. Eu acrescento aqui apenas uma alínea. É o meu modesto contributo para a discussão: a culpa da [...]
Ora aí está uma perspectiva a explorar. Talvez no epílogo… («à guisa» de digestivo)
Excelente introdução à criação do leninismo-estalinismo.
Não sendo um teórico, Estaline demonstrou ser um táctico e estratego sagaz, no campo da política, mas também um ideólogo perspicaz, com a criação e a difusão do designado marxismo-leninismo (independentemente do criador original da expressão), que não significou outra coisa que o leninismo-estalinismo, ou seja, a definição estereotipada das práticas militantes já apontadas em textos de Lenine e da sua apresentação como única prática legítima no partido, no Estado e na sociedade, porque necessária.
A opção, sob a direcção de Estaline, pela construção do socialismo num só país — que corresponde, no fundo, à edificação do capitalismo de Estado monopolista, que consubstanciava o socialismo ou o comunismo — sem esperar mais pela revolução proletária nos países desenvolvidos, que apesar das crises económico-políticas do pós guerra e da crise económica geral de 1929 não acontecia e da qual os bolcheviques estiveram até então prisioneiros, tornando instável o seu poder por toda a década de vinte e princípios da de trinta, constitui o feito inegável do estalinismo.
Daí que a redução do estalinismo à repressão brutal que acompanhou essa fase da edificação do comunismo, feita pelos comunistas ortodoxos identificando-a com desmandos e erros devidos à personalidade patológica de Estaline, me pareça constituir um sacrifício do acessório para salvar o essencial. E o essencial, no caso, é o leninismo-estalinismo, que acabou constituindo a teoria e a prática da revolução proletária e da construção do socialismo ou comunismo, e que ainda hoje constitui o catecismo dos partidos comunistas.