Outubro (2)


Vladimir Ilitch Ulianov, Lenine, em 1918, durante uma pausa no trabalho.

Este é o segundo post da série sobre a construção e a sobrevivência do «mito de Outubro». Como o primeiro, e como aqueles que se lhe seguirão, surge num registo que é ao mesmo tempo o do comentário crítico e o da divulgação.

História da conversão de um oficial da Stasi, A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen, 2006) constrói-se a partir de uma frase, que terá sido dita por Lenine a Gorki a propósito da sonata Apassionata, de Beethoven: «se continuar a ouvi-la, não acabo a revolução.» O filme de Von Donnersmarck aborda o percurso de um homem que resolveu ouvir uma certa sonata e acabou por perder a fé no mundo protegido e carcerário que a revolução de Lenine engendrara e ele próprio deveria proteger dos seus adversários.

A Revolução de Outubro não derivou de uma iniciativa individual, mas não teria sido aquilo que foi sem a intervenção e, acima de tudo, sem o contributo teórico e o talento organizativo de Vladimir Ilitch. No seu eixo está a questão do poder: como conquistá-lo (não apenas como combatê-lo) e depois como conservá-lo. Dois livros foram centrais para a fundamentação teórica e o desenvolvimento desse processo, continuando a sê-lo para a sua compreensão.

Em Que Fazer? (1902) - prosseguido dois anos depois com Um Passo em Frente, Dois Passos Atrás - Lenine justificou a necessidade da construção de uma vanguarda organizada capaz de actuar de modo a que o proletariado pudesse atingir uma «consciência revolucionária de classe» e se encaminhasse para aquele que já Marx considerara ser o seu destino histórico: o derrube da sociedade burguesa, assente na desigualdade e na exploração, e a sua substituição por uma outra sociedade, mais justa e igualitária, mergulhada num estado de guerra de «classe contra classe» e capaz de preceder a longínqua paisagem da sociedade sem exploradores nem explorados. Esta vanguarda seria o partido comunista, composto em primeiro lugar por revolucionários profissionais inteiramente dedicados e disciplinados, agindo organizadamente de acordo com os princípios do centralismo democrático, através do qual as grandes decisões políticas deveriam ser idealmente tomadas de acordo com o debate interno, exclusivamente vertical, que precede a subordinação do todo à maioria.

Já em O Estado e a Revolução (1917), sistematiza-se, meses após a proclamação das Teses de Abril, a teoria bolchevique acerca da tomada violenta do poder e da necessária continuação dessa violência com vista à destruição dos «inimigos de classe», consagrada na instauração da ditadura do proletariado. Esta destina-se a impor a supremacia da classe revolucionária sobre as forças contra-revolucionárias e materializa-se através da intervenção do Estado. Formalmente, esta ditadura deveria traduzir-se na democracia para a vasta maioria do povo - procurada de início com a constituição dos sovietes como espaço de ensaio para uma experiência de democracia directa -, mas também na supressão pela força dos exploradores e dos opressores, bem como de todos aqueles que de alguma forma pudessem, em palavras ou em actos, atrasar a rápida construção da sociedade radicalmente nova que o partido-vanguarda concebe e pretende dirigir.

Num primeiro momento, deveria exercer-se apenas sobre os sabotadores do novo sistema ou sobre os membros do Exército Branco, que combatia de armas na mão o poder soviético, mas rapidamente passou a exercer-se também sobre as forças democráticas que não partilhavam da concepção de poder dos comunistas. Sobre os socialistas-revolucionários, os liberais e os mencheviques, que haviam tido um papel decisivo na revolução de Fevereiro e no esboçar da breve experiência de democracia representativa que se lhe seguiu, mas também sobre os membros do partido bolchevique que levantavam dúvidas em relação à linha «justa», dominante, bem como sobre os defensores das nacionalidades e das igrejas, e, um pouco mais tarde, sobre os artistas e os intelectuais que não partilhassem a concepção de uma «arte ao serviço da revolução».

Na junção dos dois factores - a constituição de uma vanguarda organizada da sociedade e do Estado, e a instauração de uma vontade única e incontestável - pode encontrar-se o essencial da perversão do conceito revolucionário de liberdade e de democracia que Lenine produziu e cuja férrea tarefa de materialização o teria impedido de perder tempo a ouvir a tal sonata de Beethoven.

Nas histórias do comunismo, porém, a figura de Lenine surge quase sempre tratada de forma benévola ou mitificada. Por todo o mundo, milhões de pessoas (incluindo-se nestas aquelas que admitem sem problemas a crítica de Estaline) continuam a reverenciar Lenine como um idealista que acreditava na liberdade e na justiça para o homem comum. Quanto muito, aceitam-no como um dirigente que controlou com punho de ferro uma situação revolucionária, inevitavelmente conflitiva, que exigia essa atitude. A forma de escapar a esta leitura unilateral é analisar, de facto, algumas das directivas e das medidas pelas quais ele foi, logo a seguir a Outubro, o primeiro responsável. Incluindo-se nestas a instauração do Terror «revolucionário».

Para Lenine, e para os bolcheviques, como escreveu Claudio S. Ingerflom na obra colectiva O Século dos Comunismos, «era evidente que aqueles que não partilhavam da sua visão das coisas, e sobretudo aqueles que se recusavam a aceitá-la, eram elementos retrógrados, ou elementos hostis caso as suas origens não fossem proletárias», sendo pois indispensáveis os actos de violência, incluindo-se nesta a mais extrema, contra todos os que, discordando (ainda que apenas em palavras), se tornavam de imediato, «objectivamente», num contexto de guerra de classes, em inimigos a abater. «Enquanto não aplicarmos o terror (…) - uma bala na cabeça, por exemplo - não chegaremos a parte alguma», escreveu logo nos inícios de 1918. A constituição da Tcheka (a poderosa polícia política), o lançamento dos primeiros alicerces do Gulag, o arranque das acções de deportação em massa (de sectores sociais dos campos ou de etnias inteiras), a colectivização forçada (que atingiu sectores sociais não privilegiados do mundo rural), o extermínio da oposição (mesmo a democrática, e não apenas aquela constituída pelos partidários do czarismo), as primeiras purgas dentro do próprio partido, tiveram o cunho, e inclusive a assinatura, comprovada pelas fontes documentais, de Lenine.

Quanto ao aspecto moral, por vezes invocado nas suas hagiografias, é preciso não esquecer que foi ele quem afirmou, sem problemas, que «não existe moral em política, apenas conveniência», e que «um patife nos pode ser útil justamente por ser um patife». Como princípio para a construção de um tipo de sociedade radicalmente «novo», que 1917 teria supostamente inaugurado, convenhamos que as afirmações eram despropositadas. Se não estivessem, de facto, em consonância com uma forma de fazer política com o cunho do autoritarismo e da rejeição da «moral comum», sobrevalorizando, na tradição maquiavélica, a atitude táctica.

O que nos leva de Lenine à construção e ao desenvolvimento do leninismo. A próxima etapa desta viagem à volta de Outubro.

(continua)

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9 Responses to “Outubro (2)”

  1. Como se nota em comentários ao seu post anterior desta série, ainda há quem queira confundir as barbaridades do regime comunista a partir dos anos 20, com as barbaridades da guerra civil que se seguiu ao putsch de Novembro de 1917, o terror branco e o terror vermelho, donde ninguém sai limpo, como em todas as guerras.
    É duplicidade do mesmo tipo dos que pretendem minimizar os actos terroristas de 11 de Setembro de 2001 comparando-os com a barbaridade dos bombardeamentos de Dresden, de Hiroshima e de Nagasaki. Em horror e em número de vítimas, de facto, não são comparáveis. Esquecem estes comparadores que uns resultam dos horrores da guerra e que os outros não passam de horrores do puro terror pelo terror. Querem, no entanto, que haja sempre um mas…

    Muita dessa gente, tendo o cuidado de se distanciar do estalinismo — a barbárie paranóica em massa, a mais ignóbil, que a oligarquia comunista se viu na necessidade de denunciar após a morte do déspota para tentar pôr cobro à espiral de violência que descontrolada ameaçava os seus membros, e assim salvar a própria pele — pretende que a esquerda política, a genuína, seja a herdeira do leninismo, e não qualquer outra que advogue a reforma do capitalismo. Ora, o comunismo foi um produto do leninismo-estalinismo muito mais do que o foi do marxismo.

    Essa mesma gente ainda não compreendeu, ou finge não ter compreendido, que o comunismo não passou de um capitalismo de Estado monopolista, sob regime totalitário, não representativo de relações de produção que constituam qualquer forma de ultrapassagem do capitalismo, nem de qualquer regime político superior aos regimes democráticos, e que a sua implantação e manutenção só foi possível por métodos ditatoriais e bárbaros em sociedades atrasadas.

    Muito menos compreendeu que todos os membros duma sociedade têm um destino comum, independentemente da sua pertença de classe. Que as sociedades burguesas e a democracia representativa que nelas vigora não são apenas as sociedades e a democracia da burguesia, mas de burgueses e de proletários, dirigidas pela burguesia como rescaldo das tensões conflituais quotidianas próprias da divergência de interesses entre essas duas principais classes sociais.

    Educada, bem instalada e bem vivida, essa mesma gente arma-se em porta-estandarte de pretensos interesses do proletariado e de todo o tipo de desvalidos, mas acaba a dar voz aos piores instintos humanos — o ódio, a intolerância e a repressão violenta da divergência — como forma mal disfarçada da cobiça e da inveja que nutre pelos rico e poderosos, pretendendo transformar-se na nova oligarquia burocrática do partido único, a vanguarda iluminada capaz de guiar as massas ignaras e de implantar o capitalismo de Estado monopolista da sociedade totalitária. Triste papel o que essa gente ainda pretende desempenhar.

    Como não há-de essa gente empenhar-se na crítica da infidelidade ao pormenor do relato memorialístico de uma trânsfuga que denunciou os meandros da trapaça no seio da seita iluminada? Desviando a atenção para o secundário, tenta, por todas as formas, salvaguardar o seu próprio passado na seita e o que para eles ainda constitui o genuíno da ideologia: o leninismo. Tendo abandonado a seita e apresentando-se como porta-voz do albergue espanhol auto-denominado de “nova esquerda”, quer convencer os incautos de que a convivência na salgalhada é sinónimo de tolerância, mas à primeira oportunidade foge-lhe a boca para a verdade ou o pé para o chinelo.

    Este parece-me um texto melhor conseguido. Lénine, contudo, não foi apenas o teórico da tomada do poder e da sua conservação no curto prazo. Foi também o prático e o chefe incontestado. A violência e o terror leninistas constituem apenas a variante oligárquica bolchevique da violência e do terror autocráticos, a teoria praticada como necessária para a modernização do Império. A guerra civil e o comunismo de guerra são meros acidentes de percurso.

    Estaline não foi um mero burocrata meticuloso, o bruto asiático eventualmente pervertido pela paranóia, mas o genuíno discípulo. Desprovido de qualquer talento teórico, foi o melhor continuador da obra prática do mestre.

  2. No essencial estou de acordo com a sua análise, embora não o dissesse da mesma maneira. A minha divergência em relação à sua posição - veremos se é mesmo divergência, ou se estou enganado - terá a ver com o facto de eu vislumbrar uma dimensão de humanitarismo e de utopia no marxismo original e até na versão «para as massas» do marxismo-leninismo. Dimensão essa que, apesar de confrontada com a crueza dos factos, ainda hoje alimenta pessoas que perspectivam à sua sombra a mudança do mundo. As coisas já serão menos transparentes quando passamos a gente que tem acesso à informação e à própria tradição da crítica (interna e externa) do marxismo, mas não lhe tendo esta servido de nada. Contra isso, batatas, como diz o outro.

  3. Rui Bebiano.

    Primeiro que tudo, o meu pedido de desculpas por ter deixado um comentário tão longo e de desenvolvimento do assunto, não se limitando à crítica ou ao aplauso. O objectivo era outro, mas ainda não surtiu efeito.

    Não me parece haver grande divergência em relação a essa dimensão utópica com que o projecto político marxista continua sendo visto. A diferença de interpretação talvez resida no facto de eu encarar essa dimensão utópica como sendo exterior às concepções do Marx. É uma conotação que lhe é atribuída por quem encontra nela a corroboração dos seus desejos, dos seus ideais de sociedade, pela gente simples que gosta de ouvir o que deseja. Mas não foi essa a conotação que lhe foi atribuída pelos autores (Marx e Engels) nem pelos adeptos que lhe fizeram acrescentos teóricos (como foi o caso do Lenine).

    Para os autores, o projecto político marxista nada tinha de utópico; tinha, sim, tudo de profético. Era apresentado como correspondendo ao sentido da História e ao curso inexorável do desenvolvimento das forças produtivas sociais. Por alguma razão o socialismo marxista foi apresentado como socialismo científico, em contraponto aos socialismos utópicos defendidos até então por alguns idealistas sociais. Ainda que apresentado na proclamação panfletária de 1848, toda a obra posterior do Marx tinha como principal objectivo dar um suporte de credibilidade científica àquele projecto político. Um projecto político apresentado como fundamentando-se na ciência (e na qualidade de conhecimento certo que à época era atribuído ao conhecimento científico) não pode ser reduzido à condição de utopia, mas elevado à condição de profecia; no caso, de profecia científica, muito mais credível do que as profecias de inspiração divina (tidas por patranhas, ópio para adormecer as massas de explorados).

    Foi esta qualidade que os prosélitos sempre lhe atribuíram. É dela, parece-me, que deriva também a frieza com que os adeptos adoptaram os métodos mais bárbaros e impiedosos para o implantarem e manterem, desprezando qualquer valor humanista, tudo sacrificando aos ventos que sopravam da História. Só alguém convicto de estar provido da verdade pode cometer, ou mandar cometer, os crimes mais bárbaros sem o mais leve pingo de dúvida, de culpa e de remorso. Os comunistas pensam que fazem o que é certo. A certeza só lhes pode advir da crença numa verdade revelada. Ora, este tipo de crença funda-se na fé, não na razão. Tal como a crença em qualquer religião. Se usassem a razão, sempre poderiam pôr em dúvida algo da profecia, mesmo que acessório. Nada disso aconteceu.

    A crença na profecia não é suficiente para explicar a sua realização prática. O contexto político e social da guerra mundial e do pós guerra, a vacilação da burguesia russa, a audácia táctica dos bolcheviques para conquistarem o exército para a paz e o para o apoio ao golpe de Estado e, depois, a sua habilidade para conquistarem o campesinato para a causa da revolução, abolindo os restos da servidão e distribuindo a terra, explicam o sucesso da implantação do regime bolchevique. Não explicam a implantação e a manutenção do comunismo — o capitalismo de Estado monopolista — para as quais foram decisivas as concepções do Lenine e do Estaline e todo o contexto mundial envolvente. E o sucesso da manutenção do comunismo foi o que possibilitou fortalecer ainda mais o sentido profético do projecto político marxista, embora a correspondência fosse tosca e muito pouco ortodoxa. Para as massas, contudo, a profecia, afinal, tornara-se realidade. A ciência da História triunfara. Até que a História, sempre irreverente, mostrou que se compadecia pouco com as profecias.

    Como costumo dizer: o comunismo foi um produto que nasceu com a guerra e que morreu com a paz. A transformação da velha utopia operária e dos socialistas condoídos na profecia messiânica marxista é o que me tem interessado mais. Mas a análise dos contextos que tornaram possível a implantação e a manutenção do comunismo, e o papel desempenhado pelo leninismo-estalinismo, é uma linha de pesquisa histórica muito interessante. Não sei se é a orientação que pretende dar aos textos seguintes, ou a outros. É claro que os comunistas menos ortodoxos, encapotados, hoje, procuram refúgio no leninismo, tal como procurarão, mais tarde, no marxismo. E mesmo depois de tudo cabalmente explicado, restar-lhes-á o combate político em nome do moralismo. Os fanáticos raramente perdem essa sua qualidade.

    Continue com o seu interessante trabalho.

  4. Apesar da minha análise não estar a avançar, para já nesse sentido, poderei tentar, em episódios subsequentes desta série, dialogar com ela. Totalmente de acordo em relação à subversão marxista da dimensão utópica dos próprios movimentos emancipatórios (não gosto muito desta palavra, mas vai assim) do século XIX, mas sem a destruir no essencial da sua concepção de um mundo mais justo. Mas a machadada decisiva foi dada por Lenine. Todos os outros foram apenas intérpretes, incluindo-se nestes Estaline ou Mao.

  5. Peço desculpa ao autor deste post por me limitar a uma parte de um comentário aqui desenvolvido por outrém. Não que esteja a meter a foice em seara alheia, mas esse comentário suscitou-me curiosidade.

    JMC escreve num dos seus comentários,

    «Essa mesma gente ainda não compreendeu, ou finge não ter compreendido, que o comunismo não passou de um capitalismo de Estado monopolista, sob regime totalitário, não representativo de relações de produção que constituam qualquer forma de ultrapassagem do capitalismo»

    Suponhamos que era verdadeira esta afirmação. Ou seja, suponhamos que o que teria vigorado, por exemplo, na URSS teria sido uma forma de capitalismo de Estado. A ser verdadeira, essa asserção parece corresponder a uma contradição no global das suas exposições. Senão vejamos. Se o que vigorou na União Soviética, enquanto sistema económico e político, foi uma forma de capitalismo, como se poderá atacar os erros e falhanços naquele país como efeitos do socialismo, já que este, nas suas palavras, não teria existido? No fundo, se foi o capitalismo - numa das suas formas - que vigorou na URSS como se poderá então imputar responsabilidades humanas a estruturas sociais (de matiz socialista) que não teriam existido? Em última análise, não foi o socialismo enquanto sistema social que falhou - na medida em que não teria existido - mas, na realidade, o capitalismo que, sob novas roupagens, teria sido responsável pelos aspectos negativos da URSS. Que tal sistema social se tivesse legitimado - no plano simbólico-ideológico - através do recurso a uma ideologia de tonalidades socialistas, nada disso parece obstar ao facto de que os aspectos mais negativos ali ocorridos são causa directa da persistência e/ou introdução de elementos capitalistas na formação social soviética. Desse modo, você limita-se a assinar por baixo a justeza da luta contra o capitalismo (independentemente da sua forma) reivindicada pelos marxistas.

  6. Peço licença ao Rui Bebiano para responder à questão que me foi colocada. Se não concordar com a extensão ou com o conteúdo, poderá não editar esta minha resposta.

    João Aguiar.

    No meu comentário (ou nos meus textos) não existe esse tipo de contradição ingénua que quer fazer crer. Se é gosto pessoal inventar contradições e entreter-se a discorrer sobre elas, lembro-lhe que jogar à macaca poderá ser muito mais interessante: joga sozinho, imagina as composições mais interessantes, tudo sem necessidade de chamar ninguém à liça.

    O comunismo (ou o socialismo, como lhe chama) que existiu nos países do chamado “bloco socialista” e o da profecia messiânica marxista (do Manifesto, com os acrescentos da Crítica do Programa de Gotha e outros) não são coisa diferente de “capitalismo de Estado monopolista, sob um regime político ditatorial e uma organização social totalitária”. Falhadas que estão todas as experimentações sociais de um tal modelo, os adeptos comunistas, fazendo uso da sua conhecida imaginação e criatividade, poderão dedicar-se à invenção de um novo, susceptível de obviar às nítidas limitações deste para concorrer com o capitalismo individual concorrencial sob regime político democrático e organização social livre. Seria de toda a conveniência, contudo, que o apresentassem nos seus programas ou manifestos, antes que possam enganar de novo os povos com a repetição da tragédia.

    A relação de produção estabelecida foi o salariato (sabe o que é, certamente: os trabalhadores vendiam trabalho e recebiam salário); a propriedade dos meios de produção era do Estado e, através deste, do partido comunista (que controlava o Estado e em muitos aspectos se confundia com ele), que assim se constituía como proprietário monopolista; o regime político vigente era o de ditadura repressiva e violenta, sem quaisquer direitos para os opositores (que nem tinham direito à existência enquanto tal), para os simples recalcitrantes e, até, para os correligionários discordantes; a organização social instituída era constituída exclusivamente por organismos do Estado, do partido comunista ou por simulacros de organizações independentes por qualquer forma por eles controladas (alguns exemplos desse tipo de organizações independentes também existem por cá, mesmo sem o PCP ter tomado o poder — CDU e os seus antecessores, Partido Ecologista Os Verdes, Associação de Amizade com a URSS e outras, Associação de Reformados e Pensionistas, Conselho Português para a Paz e a Cooperação, etc., etc. — imagine o que seriam por lá, e o que foi a CGTP lá daqueles sítios).

    Embora nem todas estas características estejam previstas no projecto político profético marxista — porque apesar de tudo o Marx não era tão trapaceiro nem maquiavélico como os discípulos leninistas-estalinistas vieram a ser — o salariato e a propriedade estatal estão lá. Ah, e está também a “ditadura do proletariado”! Vou ser benévolo: talvez com um outro significado, mas está lá. Do que não está, os discípulos se encarregaram de colmatar as lacunas (a eliminação sumária dos inimigos e dos adversários, o Gulag, o partido único, os hospícios, as fomes repetidas e a escassez permanente em vez da prometida e desejada abundância, etc., etc.). As soluções que encontraram foram certamente as melhores, porque foram experimentadas por muito lado desfasadas no tempo, já com experiência acumulada. A legitimação ideológica não constituiu qualquer embuste que os discípulos tivessem feito às massas: o comunismo (ou o socialismo) que existiu corresponde no essencial ao projecto político profético, e a legitimação ideológica do capitalismo de Estado monopolista como comunismo (ou socialismo) está nele feita.

    Poderá sempre questionar-se o que terá levado os autores a uma distinção semântica tão subtil para designarem o capitalismo sem capitalistas individuais por comunismo (ou socialismo), quando os comunismos até então imaginados ou postos em prática eram bem diferentes. Talvez porque tenham chegado à conclusão que a via do progresso não poderia ser um retrocesso, um regresso à produção artesanal daqueles comunismos, mas aproveitar o progresso que o capitalismo tinha introduzido. Daí que para o socialismo científico ou comunismo, do que se tratava era de substituir os capitalistas individuais por um capitalista colectivo, o Estado. A única grande interrogação que seria legítimo colocar é se os sítios onde foi levado à cena reuniam as condições previstas, e se as forças produtivas estavam neles suficientemente desenvolvidas. Nesse aspecto, os discípulos forçaram um pouco a nota. O grande embuste poderia ter sido esse. Mas, que se lixe! A tendência do poder para a violência, por aquelas bandas, era coisa endémica, e o comunismo só destoou pela dimensão da tragédia em tão curto período. A acumulação necessária para recuperar o atraso foi feita a mata-cavalos, que é como quem diz a mata-gente, e num ápice, com a ajuda da crise que grassava nos países de capitalismo individual concorrencial no pós guerra, com a abnegação de operários entusiastas e com a rapina ao campesinato, a recuperação foi rápida.

    Nem que o Marx fosse dotado da mais fértil das imaginações poderia antecipar a forma que tomaria o que ele designou por “produtores associados” (que, diga-se de passagem, serve para tudo e mais alguma coisa, para além do trabalho subordinado da relação de produção salarial). Porque imaginou a revolução social restrita à sua componente política, e esta como revolução política proletária, levada a cabo pela classe explorada do capitalismo, ocorrendo numa situação em que as relações de produção dominantes eram as relações de produção salariais ou capitalistas, e em que o proletariado se apropriava dos meios de produção existentes, a revolução comunista proletária não poderia instituir outro tipo de relação de produção que não a salarial. Por uma razão simples: era a que existia com provas dadas no desenvolvimento económico-social. A tal ponto que criou a classe dos trabalhadores assalariados, os proletários, libertando os servos e mitigando as fomes e a miséria dos tornados supérfluos pelo modo de produção tributário. É que tipos novos de relações sociais não se inventam do pé para a mão nem da noite para o dia, nem são criados pelas revoluções políticas. Demoram muito tempo a criar, séculos de aproveitamento das oportunidades e de experimentação da sua eficácia na prática produtiva quotidiana; não têm autor identificado e não nascem de qualquer inspiração ou de qualquer projecto voluntarista de transformar o mundo.

    Uma das correntes de comunistas marxistas-leninistas — a mais purista, que se considera a guardiã do templo — pretende que o comunismo (ou o socialismo) nunca existiu. Afirma que as barbaridades cometidas pelos regimes comunistas (ou socialistas) teriam sido obra duma malvada “burguesia burocrática”, com Estaline à cabeça, que teria usurpado o poder ao proletariado. Outra das correntes, na qual você se integra, não desce ao ponto de negar a genuinidade do produto, mas afirma que o descalabro do comunismo (ou do socialismo) por tudo quanto é sítio foi obra de erros sistemáticos, persistentes e generalizados, ao ponto de configurarem um modelo (pudera, pois se aquilo era tudo copiado uns dos outros!). Para não perderem a fé, não vá o diabo tecê-las!, não lhes dá para imaginarem se sem o que chamam de erros aquilo teria sequer sido possível. Não queira agora você integrar-me em tais correntes, ou a representar uma outra, ao pôr-me a afirmar que o comunismo (ou o socialismo) nunca existiu e que tudo aquilo foi obra do malvado capitalismo.

    Você sofre de uma forte fobia em relação ao capitalismo, isso sabemos. Só vê nele perfídia, malvadez e desgraça, obra de belzebu a encaminhar-nos para a barbárie. Quando se demonstra que o comunismo (ou o socialismo), afinal, não passou (nem poderia passar) de capitalismo de Estado monopolista, sob regime político ditatorial e organização social totalitária, fica arrepiado e entra em pânico. Então se este capitalismo individual concorrencial, sob regime político democrático e organização social livre produz desgraças tamanhas, o outro só pode ter sido o Inferno. E foi, de facto! Este capitalismo pode ser o purgatório, mas o capitalismo de Estado monopolista ou comunismo (ou socialismo) é o Inferno. Causa-lhe dissonância cognitiva, o transtorno emocional é demasiado. Compreendo. Resta negar, para assim tentar compensar. Desconfio que não seja o melhor remédio. Mas, enfim, se você, tão jovem, escolheu o missionarismo e o martírio ao serviço duma imaginada causa dos explorados e dos pobres, é porque estará fadado para o sofrimento e a ilusão. Que siga a sua vocação. Pode enganar-se à vontade. Não deveria contribuir para enganar os trabalhadores assalariados.

    Aqui neste blog, você poderia ter aproveitado para me questionar sobre outras minhas afirmações conexas. Corro o risco de deixar respostas extensas em casa alheia e incomodar os habituais visitantes. Em relação a este tema, assim como a outros relacionados com o marxismo e o comunismo, sobre os quais você tem escrito ou andado a recolher entrevistas de abalizados adeptos, pode questionar-me no meu blog. Como é um sítio dedicado aos temas, mesmo com comentários extensos, ou com polémicas, os visitantes não se incomodarão, até poderão agradecer a fuga à rotina. Tenho lá uns acepipes bons: explicação da exploração, teoria do valor das mercadorias, teoria da revolução social. E podem arranjar-se outros, que por serem extensos em demasia até nem lá foram expostos: transformação dos valores em preços, tendência para a queda da taxa de lucro, etc. Terá apenas de se apetrechar com argumentação. Restringir-se a citar o Marx ou a repetir as ladainhas ainda mais estapafúrdias dos adeptos, não é aconselhável. Poderá ser-lhe exercício útil, para o intelecto e para outros voos políticos. Quem sabe se você não poderá vir a ser o teórico do comunismo sem capitalismo? Fure as ordens, vá até lá, dê nem que seja uma espreitadela. E refute o que para lá digo. Sempre é melhor do que pôr-se a imaginar contradições.

  7. Antes de mais quero pedir desculpa ao proprietário do blog por ter lançado inadvertidamente uma “polémica” no seu espaço, aliás, um dos mais interessantes e mais bem escritos da blogosfera portuguesa, independentemente das discordâncias a algum do seu conteúdo. Daí que, para encerrar o assunto neste espaço, apenas farei um comentário final.

    A mim não me mete nenhuma confusão em admitir que na URSS tivessem subsistido elementos de cariz capitalista e que os próprios comunistas tivessem defendido até o seu próprio desenvolvimento. Basta ler o Lenine quando este no início dos anos 20 fala da coexistência de cinco modos de produção na formação social russa de então e a sua defesa intransigente para o desenvolvimento do capitalismo de Estado como forma de tentar resolver o atraso da sociedade e da economia russas. Essa era uma abordagem perfeitamente legítima e sensata de encarar as dificuldades que a fase de comunismo de guerra acarretou, sobretudo para o campesinato russo. A própria NEP, a introdução de um director/gestor nomeado unilateralmente pelo Estado em cada unidade produtiva são, entre muitos outros aspectos, elementos do desenvolvimento de uma base material capitalista na URSS. Aliás, até para simplificar a coisa, o trabalho assalariado não foi superado na URSS. Com certeza concordará comigo que, no fundamental, o sistema sócio-económico soviético era, em termos estruturais e objectivos - não me estou a referir à ideologia política vigente e a conotações de ordem simbólica - capitalista. Com nuances vincadas mas onde não se conseguiu superar as relações de produção capitalistas.

    Ora, onde é que eu quero chegar, pergunta você? Se o que, repito em termos das estruturas sociais e económicas, vigorou na URSS foi uma forma de capitalismo, como se pode assacar responsabilidades de alguns desastres humanos que aí terão ocorrido, a um sistema social socialista que não teria pura e simplesmente existido, pelo menos de forma hegemónica no conjunto da sociedade? Acho que fui muito objectivo na colocação da questão. Não espero uma resposta, pois como disse no início do comentário não voltarei a esta discussão neste espaço. Apenas quero vincar a questão que lhe levantei anteriormente.

    Uma observação pessoal. Menos fel destilado aconselha-se. Você parece ser daquelas pessoas biliosas de que falava o Hipócrates. Não faz bem ao coração e acaba sempre por estragar debates que até podiam ser muito interessantes.

  8. Duas ou três breves notas, já que a minha condição de autor do blogue foi invocada.

    - A expressão de posições divergentes e fundamentadas só valoriza este blogue. É uma das razões pelas quais, apesar de correr alguns riscos com isso, mantenho os comentários activos.

    - Claro que comentários muito extensos são menos lidos. A concisão é desejável, mas certas vez ela é impossível. Ou então as pessoas estão no seu direito de não terem vontade de ser concisas.

    - Existe neste blogue uma política para a publicação de comentários (ver a secção Info). Ela é muito maleável e apenas se destina a impedir situações extremas de agressividade ou de oportunismo. Claro que o nível da argumentação nem sempre é o mesmo, mas isso é normal.

    - Tenho pena de não poder intervir em algumas conversas tal como gostaria. Nesta, por exemplo. Isso tem a ver com o tempo que, mesmo assim, isto já me tira a outras tarefas. Tentarei dialogar com algumas ideias nos próximos textos. Continuo, pois, atento.

  9. Oh, João Aguiar! Pode crer que não se trata de fel. É já uma certa falta de pachorra para aturar tanto dislate. E é também um reflexo do repúdio pelo cinismo de quem não tem pudor em afirmar andar a defender os interesses dos trabalhadores assalariados e contribuiu activamente para agravar as condições da sua exploração, não apenas no comunismo, mas sob o capitalismo que temos por cá, e do asco que nutro por tal gente. Tratando-se de jovens, como você, que se perdem a repetir ortodoxias ultrapassadas e a defender causas grotescas dos amanhãs que cantam, a indignação acresce um pouco. Os debates só são frutuosos entre quem tem algo para debater. Não é o seu caso, porque se tem mostrado um aprendiz de marxista que não ultrapassa a repetição das cartilhas. Por total falta de pachorra nem abordo o que você escreve de sua autoria ou o que transcreve das conversas com adeptos marxistas de renome no seu blog, em O Diário ou no Resistir. Gostava de discutir argumentos, não desejos ardentes nem lamúrias pungentes. Em liberdade, sem o condicionamento de que vem aí o fim do Mundo ou a barbárie.

    Na URSS e no “bloco socialista” vigorou uma certa forma de capitalismo, precisamente o “capitalismo de Estado monopolista, sob regime político ditatorial repressivo e organização social totalitária”, e isto é o comunismo. O comunismo, seja o da proclamação profética, seja o que de facto existiu, não é outra coisa se não essa forma diferente de capitalismo, porque simplesmente não poderia ter sido outra coisa. A contradição que você inventou como tendo visto nas minhas palavras foi apenas pretexto para mais um exercício de estilo. Dedique-se a outra entretenha.

    Se quiser, podemos discutir sobre os equívocos marxistas que fazem com que o comunismo da profecia não seja outra coisa se não essa forma nova de capitalismo (que, de resto, teve sequência em formas miméticas, mais mitigadas, que deram pelo nome de fascismo e de nazismo). Mas não aqui. Você e os seus camaradas poderão ir ao meu blog e levantar todas as discordâncias que entenderem. Poderemos abordar a questão da diversidade das formas de propriedade privada e das formas de apropriação privada de parte do produto social, e as confusões marxistas acerca do assunto. E, também, a diferença entre a realidade e as representações que os actores sociais fazem dela e da sua própria acção. Duvido que seja trabalho frutuoso, mas sempre é mais uma oportunidade para que você e os seus possam sair do círculo vicioso em que navegam.

    Por minha parte, ponho ponto final nesta discussão aqui. Agradeço a tolerância demonstrada pelo editor do blog ao dar seguimento a uma discussão que não iniciei.

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