Outubro (1)


Fotografia muito divulgada do ataque ao Palácio de Inverno, ocorrido em Outubro de 1917. Trata-se de uma encenação produzida cerca de três anos depois. O ataque ao Palácio ocorreu durante a noite e dele não existem imagens.

Há meses atrás, planeei escrever uma série de posts sobre a traição de uma parte substancial da esquerda aos seus próprios códigos fundadores. A tarefa era ambiciosa e, pensando melhor, um tanto megalómana, mas chegou a ser aqui anunciada. Retomo-a agora sob um desenho diferente, centrado na experiência e nos múltiplos reflexos da Revolução de Outubro, bem como no seu valor simbólico.
Outubro faz noventa anos, mas está menos agonizante do que por vezes aparenta. Na superação do seu legado – e dos grandes equívocos que produziu – encontra-se, provavelmente, a única forma de interromper a deriva autoritária e intolerante que a esquerda antineoliberal contemporânea tem sido incapaz de apagar das suas agendas.

Logo em 1991, Marc Ferro previu que o desaparecimento da União Soviética conduziria, mais cedo ou mais tarde, ao ressurgimento do «mito de Outubro». Menos de vinte anos depois, a previsão parece ter sido certeira: a memória da Revolução de Outubro sobrevive, no horizonte histórico de milhões de pessoas, de uma forma dupla: como farol de esperança ou, inversamente, enquanto sombra da perversão autoritária do socialismo.

Após a abertura de uma boa parte dos arquivos da ex-URSS e dos países do antigo «bloco socialista», a atitude de condenação passou a ser sustentada por um vasto conjunto de testemunhos e de documentos. Sob este ponto e vista, «1917», longe de ser uma data a celebrar, evoca o arranque da primeira grande experiência totalitária do século XX. Uma forma de governo ultra-centralizador, autoritário e antidemocrático nasceu então, promovendo a organização sistemática da violência como instrumento de poder, a repressão sem quartel de qualquer forma de dissidência, o exercício de actos de brutalidade contra populações inteiras (por intermédio de deportações maciças, de execuções sumárias ou da redução planificada dos factores de sobrevivência), a instauração de um sistema económico e social que, apesar de fundado sobre princípios de igualdade, originou um estado generalizado e contínuo, tornado endémico, de pobreza. Sobre este, a minoria dirigente seguia erguendo um Estado forte e agressivo. Tudo isto era já perceptível durante a guerra civil que se seguiu à Revolução, embora tenha sido conduzido a um estádio superior sob a mão de ferro de Estaline.

Por sua vez, a esperança durou longas décadas e permanece ainda, em todo o mundo, como fonte inspiradora da noção de cidadania e da acção interveniente de um grande número de pessoas, embora tenha sido, nos últimos anos, erradamente minimizada no alcance que obteve e na permanência do seu impacto. Ferro anotou a origem última do «mito de Outubro» e das condições para a imposição da sua grande capacidade dinâmica: «destruir e transformar o mundo para instituir uma Cidade da Felicidade é uma utopia tão antiga quanto a história dos homens».

De modo a proceder depois à sua crítica, foi François Furet quem mais cedo procurou desenhar a dimensão sistemática e positiva desse mito, adaptando-a à genealogia da experiência soviética. Em O Passado de uma Ilusão, o seu livro de 1995 tão mal-querido hoje de alguma esquerda, dedica um capítulo inteiro ao que chama «o encanto universal de Outubro», que considera haver adquirido, logo após o termo da Primeira Guerra Mundial, o estatuto de um acontecimento universal capaz de preencher uma expectativa utópica e emancipadora que a memória da Revolução Francesa havia já deixado morrer. Desde logo por pretender inaugurar - a partir de um acto que foi de facto um putsch militar e não uma insurreição de massas como tantas vezes é referido - uma época nova na história da humanidade, assente, pela primeira vez, no poder dos produtores. Mas também por estimular uma «ideia de revolução», contendo uma capacidade instauradora de um processo radical de destruição e de construção, que ainda hoje constitui o núcleo da crença na «Revolução» como instante regenerador com equivalentes, na linha da história, apenas no domínio das escatologias fundadas na religião.

Ao contrário destas, porém, o paraíso não é reencontrado, mas sim construído, num locus que não se situa no além-morte, mas sim do lado de cá da vida. Aqui, na Terra, configurando assim uma quimera de grande efeito mobilizador e dinâmico, já não situada num tempo de espera ou de mortificação, mas sim no território da luta e da acção criadora. No termo do processo, um «futuro radioso», esses «amanhãs que cantam» capazes de mobilizarem os prosélitos, mas também as grandes multidões de oprimidos.

Neste contexto, o que existe então no mito de fascinante e de superador da sua ligação ao real na Revolução de Outubro? Furet conclui que é «a afirmação da vontade na história, a invenção do homem por si próprio». Os seus protagonistas irão então autoglorificar-se como figuras adornadas de um encanto irresistível, fornecido pela sua apresentação como encenadores e como protagonistas da própria história, de acordo com um programa inelutavelmente «científico», que Marx desenhou e os bolcheviques teriam levado à prática. O «mito de Outubro», nunca será de mais lembrá-lo, foi construído pelos seus próprios intérpretes, e depois prolongado através da acção organizada dos partidos comunistas, assumindo um protagonismo transformador assente num combate sem quartel destinado a colocar, ou a recolocar, a História a rodar nos seus eixos.

A chave da sua compreensão encontra-se, no entanto, na compreensão do alcance e da dinâmica da sua matriz fundadora. Esta pode encontrar-se na intervenção de Lenine e na interferência revolucionária do leninismo. Mas este é assunto que ficará para o próximo post desta série.

(continua)

Seguinte: Outubro (2)

10 Responses to “Outubro (1)”

  1. “a partir de um acto que foi de facto um putsch militar e não uma insurreição de massas”

    meu caro, a vontade de fazer a crítica à URSS não pode te levar a tomar alho por bugalho. dizer que Outubro não foi uma insurreição de massas é ignorar a História. num país daquelas proporções seria impossível derrubar um regime secular sem insurreição geral do povo. quem compunha as fileiras armadas dos bolcheviques? militares profissionais? quem fazia as greves? quem fazia os comícios?

  2. Claro que não foi. Podemos falar de «revolução» em relação ao processo, sem dúvida. Não ao acto insurreccional em si, organizado pela minoria bolchevique, que levou à tomada do poder e ao fim da democracia representativa em Outubro (Novembro, no outro calendário) de 1917. A encenação a posteriori tem sido sujeita à crítica histórica e é hoje conhecida (incluindo-se neste processo de «esteticização» o conhecido filme de Eisenstein, realizado em 1927 e, ainda assim, não totalmente alinhado com o Kremlin, que o considerou «formalista» e «ininteligível para as massas»). Tenho lido umas coisitas sobre o assunto nos últimos trinta anos. E não foram propriamente cartilhas.

  3. Tenho dúvidas de que a “esquerda antineoliberal”, como lhe chama, tenha sofrido qualquer “deriva autoritária e intolerante” que tenha “sido incapaz de apagar das suas agendas”.
    Essa esquerda de que fala sempre foi autoritária e intelorante. Não poderia ser de outra forma. Ela defende a via revolucionária para a conquista do poder e não se sujeita a qualquer sufrágio livre, impondo a ditadura repressiva para o conservar. Se no projecto político dessa “esquerda antineoliberal”, depois de conquistado o poder, não há qualquer laivo de democracia, não pode ter havido qualquer deriva autoritária.
    Afirmando-se anti-capitalista, mas não sendo representante de qualquer outra classe que não a classe explorada do capitalismo; não existindo por lado algum outro modo de produção mais progressivo do que o capitalismo, o que essa esquerda defende é o capitalismo sobre outro regime político, no caso, o capitalismo de Estado monopolista sob um regime ditatorial e totalitário.
    O comunismo ou o socialismo dessa “esquerda antineoliberal” é a designação, perversa, do capitalismo de Estado monopolista. E sob esta forma o capitalismo apenas se mostrou adequado para alcançar taxas de acumulação impossíveis sob o capitalismo privado individual das sociedades democráticas, fazendo recurso do trabalho compulsivo e da coerção mais inaceitável. Depois de alcançada alguma modernidade, essa forma de capitalismo tem-se mostrado obsoleta, incapaz de concorrer com o capitalismo privado individual. Daí o descalabro dos regimes comunistas por todo o lado.
    Interessante seria intentar a comparação da profecia messiânica marxista com as profecias das diversas religiões sagradas.
    Depois, também está por provar que o actual neo-liberalismo, a globalização do capitalismo, seja um mal para os povos, que sem essa globalização continuariam amarrados aos índices de pobreza dos quais o capitalismo os está retirando. Para ter uma visão global, não basta olharmos para o nosso quintal.
    Espero que os textos seguintes tenham a clareza suficiente para desfazer alguma ambiguidade que se nota neste, e ajudem a compreender melhor o que pretende dizer.
    JMC.

  4. São dois aspectos diferentes.

    O primeiro é aquele que aqui mais me interessa e tem a ver com uma tentativa de perspectivar, a partir da sua compreensão histórica, a possibilidade de uma certa revisão-renovação da matriz protestatária e vinculada a processos cívicos e culturais de transformação dos comportamentos que, na acção e no pensamento de uma parte substancial da esquerda contemporânea, foi completamente subvertida e abafada pelo leninismo. Neste contexto, um dos aspectos em que espero insistir tem a ver com o carácter objectivamente arcaico e autoritário de algumas experiências que se pretendem fazer passar como próprias de uma qualquer «nova esquerda».

    O segundo aspecto, que tem a ver com a caracterização do neoliberalismo, não é aquele que aqui me interessará mais. Mas não pode ser ignorado, na medida em que, no essencial, corresponde a uma atitude de desinvestimento na dimensão solidária e colectiva que não posso aceitar. Por muito que a sua cara «desenvolvimentista» possa parecer atraente a quem entenda que um belo dia, por vontade benévola dos poderes, toda a gente passa a viver feliz e contente à custa da apropriação estritamente privada da produção de bens e da gestão da coisa pública. É preciso um espaço de vigilância e combate em relação às constantes e inevitáveis perversões que esta perspectiva transporta consigo.

    É provável que alguns destes aspectos se possam ir tornando mais claros à medida que esta série de posts for sendo produzida. Veremos o que sai daqui.

  5. Rui Bebiano,
    Cheguei a este post através de um blog que garante que o PCP apoiou Pol Pot , Hitler e Ceausesco que mandava delegações aos congressos do PS, um blog de gente séria, portanto. O texto de Rui Bebiano exige uma discussão mais elaborada. Apenas gostaria de partilhar uma dúvida, estou convencido que a “encenação” de que fala, foram as filmagens do filme Outubro de Einsenstein. O que torna diferente o sentido que dá à palavra “encenação”.

  6. Refiro-me, Nuno, à grande encenação de um evento histórico. Neste caso, Outubro. A encenação eisensteiniana é um pormenor, por acaso ligeiramente desviante, dessa outra, mais profunda, longa e com múltiplas autorias.

  7. Rui Bebiano,
    Eu referia-me apenas à legenda da foto. Como afirmei antes, o teu texto necessita de resposta mais cuidada. Embora, eu ache a obra de Furet sobre a questão bastante simplista e empenhada: uma espécie de versão académica da história dos vencedores.
    Como interessado no estudo desse período, não abandonaria outras histórias e outros autores, como E. H. Carr, Isaac Deutscher e Edmund Wilson, por exemplo.
    Acho que Outubro não foi o mal absoluto encenado em utopia. E para teu sossego, aquilo que pareces defender já está concretizado. Muita gente da esquerda já abandonou a ideia de ruptura e de corte revolucionário em relação ao capitalismo. A Terceira Via é a prova do crescimento dessa “esquerda responsável” que se contenta em fazer a política da direita.
    Sobre este assunto, estou de acordo com Zizek quando fala que deve haver um regresso a Lenine. Não para fazer o que ele fez, mas para nos lembrarmos dessa capacidade de analisar uma situação e agir.

  8. Não tinha percebido que a tua referência dizia respeito à fotografia. Ela foi feita três anos depois, em 1920, de acordo com o local de onde a retirei: um site académico do qual, infelizmente, não encontro agora a referência (ainda vou procurar melhor e, se encontrar, meto o link). O filme do Eisenstein é de 1927. Veja-se entretanto isto: http://max.mmlc.northwestern.edu/~mdenner/Drama/plays/agit/agit1.html

    Quanto ao texto em si: não se trata de um ensaio, obviamente, mas de um texto livre, no qual irei tentando deixar algumas pontas para uma eventual discussão. E citar o Furet - ou outro autor qualquer ao qual pudesse ter recorrido - não significa assinar por baixo toda a análise, como sabes. Embora muito menos assinasse por baixo das obras que conheço dos autores de orientação essencialmente marxista que citas.

    Claro que também concordo com a imprescindível dimensão revolucionária da acção da esquerda, mas não a associo à obsessão pela tomada do poder e pela exclusão liminar de quem dela não partilha. Atitude que resulta do tal legado leninista que ainda continua a mexer, mesmo quando quem o assume não parece aperceber-se disso.

    Uma nota mais: gosto tanto da ideia de uma “esquerda responsável” como da de uma “esquerda de confiança”. Não é a mesma coisa?

  9. Não. Rui Bebiano, “uma esquerda de confiança” é exactamente o contrário daquilo que Blair, com tanta graça, apelidou como “uma esquerda dos interesses”.
    Sobre a eliminação de quem não concorda, supostamente de matriz leninista, seria interessante relembrar que a crítica anti-bolchevista tinha expedientes igualmente democráticos, como a liquidação fisica de comunistas e simples operários nas zonas em que os exércitos brancos triunfaram. Na Finlândia tiveram a capacidade de massacrar um quinto dos proletários locais em menos de dois meses…
    Talvez fosse interessante analisar a violência no contexto da violência e não projectar esse momento histórico, para o campo do nosso/meu sofá, enquanto vemos a televisão.
    Apesar de estar de acordo contigo que esta moleza democrática do sofá é uma conquista de civilização e que somos muito mais afortunados do que aqueles que combatiam, morriam e matavam de armas nas mãos pelas suas ideias.

  10. Os próximos posts da série - que irão saindo devagar e de forma irregular - tocarão alguns desses temas, embora conte que se pareçam mais com textos de história e reflexão crítica nos quais procurarei não misturar alhos com bugalhos.

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