Contemplação

Apanhei apenas a parte final da entrevista feita por Mário Crespo, na SIC-Notícias, ao novo director do Museu Nacional de Arte Antiga. Mas o que ouvi pareceu-me tão transparente quanto preocupante: a defesa do museu de arte concebido, muito acima de todas as outras possibilidades, como lugar vocacionado para a conservação da «peça» e para a «investigação científica». Como área no interior da qual um público demasiado vasto e um tanto ruidoso se revela essencialmente indesejável e inconveniente. Ficou no ar uma frase um tanto arrepiante que vale por cada uma das suas palavras e pela concepção do significado da própria arte que indicia: com demasiado público nos museus, afirmou Paulo Henriques, «não há seriedade (sic) para a contemplação de um quadro». Ah, e também deixou bem claro que, na sua opinião, os museus portugueses devem manter as ambições «à escala do país que de facto somos». Estamos entendidos.

4 Respostas

  1. O poder.
    O novo director do museu de arte antiga e Margarida Moreira na televisão esta noite.

  2. A noite, não a Terceira, voltou a ocupar o seu lugar no museu antigo. É uma noite muito antiga esta, o museu, o espaço do museu apenas como lugar de contemplação esotérica. A desbunda intelectual sobre o nascimento dos museus em Portugal, foi, a certo momento da entrevista, a cereja sobre um discurso cauteloso. Embora creia que exista quem tenha gostado da postura, como será lógico prever. Ficou um retorno ás origens e pouco mais.
    Embora as entidades bancárias citadas, pelo entrevistador, como possíveis e futuros mecenas de possíveis salas do museu seja uma decoração do agrado do nosso novo Director do MNAA, não os estou a ver a correr em direcção às Janelas Verdes. Embora se saiba que a pátine do tempo fique sempre bem a uma entidade que se quer acima de qualquer suspeita.

  3. triste, triste.
    o senhor director nunca deve ter estado na national gallery, ou no british museum entre centenas de crianças, jovens, velhos, gordos, magros, amarelos, vermelhos ou azuis, nacionais e estrangeiros, etc., exemplos possíveis entre tantos outros. ou então, se por lá passou, o senhor director deve-se ter sentido muito, muito incomodado. e incapaz de apreciar as obras primas “à escala do país” que as albergam.
    pobre senhor director.
    feliz senhor director. pode agora ser um cumpridor amanuense, daqueles que se encosta ao poder e por lá se mantém, apesar dos pesares. usufruirá de um confortável salário, estará presente nos grandes actos devidamente engravatado e sempre bem acompanhado. e receberá os aplausos dos que nunca querem mudar e os agradecimentos por ter colaborado no afastamento de uma perigosa mulher, daquelas emotivas, desiquilibradas, que não sabem calar-se, que desconhecem o seu lugar.
    feliz senhor director que, apesar dos pesares, ainda assim terá público para as suas obras de arte “à escala do país que somos”. obras maiores, porém, do que a sua visão.

  4. Lamentáveis palavras do senhor director. Na verdade, também alguns intelectuais portugueses padecem desse mesmo problema: mentes pequenas à escala do país.

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