
A poucos dias de se perfazerem cinquenta anos sobre a sua saída em 5 de Setembro de 1957 para as livrarias americanas, um pequeno dossiê do suplemento Ípsilon rememora o impacto da primeira edição portuguesa de On the Road, de Jack Kerouac, lançada em 1960 pela Ulisseia com o título Pela Estrada Fora (numa tradução de Hélder dos Santos Carvalho, morto novo quando vivia em França a sua própria experiência «na estrada»). Num volume da colecção Découvertes Gallimard, Alain Dister sublinha o desconforto da viagem à boleia – ou em auto-stop, como se lhe referiam os jovens portugueses «francófilos» da década de 1950 –, relembrando a fadiga, o desconforto, o aborrecimento, o frio, a chuva, o perigo, mas recorda também como, para a geração que tomou On the Road como bíblia da perpétua deslocação, tudo isso era facilmente trocado pela sensação de liberdade, de procura e de vertigem que esta sempre possibilitava. A estrada de Kerouac, na sua imensidão, na melancolia dos cenários imutáveis ao longo de centenas de quilómetros, mas também no inesperado que a qualquer instante a podia cruzar, transformava-se na grande metáfora para uma vida em movimento que uma parte da juventude americana e europeia das décadas de 1950-1960 antevia como cenário da descoberta da felicidade, mas que fechará simbolicamente em 1969, com Easy Rider, o road movie de Dennis Hopper marcado já pela visão desencantada, pós-hippie, do fim da utopia.
O destaque dado neste conjunto de artigos a alguns portugueses que, por aquela época, perseguiram essa bela quimera, faz todo o sentido. Mas o que não é referido, e que por isso valerá a pena lembrar, é que num país periférico, silenciado e fechado ao exterior como o era Portugal na altura, esse desejo de evasão pela viagem se processou principalmente por vias bem diversas da procura individual e descomprometida dos membros da beat generation e dos seus discípulos. Aqui, para a esmagadora maioria das pessoas, e principalmente para os jovens urbanos e com alguns estudos, quando até a própria boleia era olhada com desconfiança por boa parte da sociedade e pelas autoridades, a vontade de fuga materializava-se principalmente nos consumos culturais possíveis – em especial naqueles mais solitários, proporcionados pela leitura, pela música, ou, em menor escala, pelo cinema – ou, no limite, na experiência da fuga através da imaginação de locais idealizados a partir de referências físicas que iam de Nova Iorque e Paris a Moscovo e Pequim. Os nossos beatniks ter-se-ão contado pelos dedos e permaneciam invisíveis, por muito que hoje se possa fantasiar acerca do seu papel ao longo da década e meia que antecedeu a revolução de Abril.
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Tinha acabado de ler a «Ípsilon» quando aqui cheguei.
Estarei talvez enganada, mas creio que o movimento «hippy» teve mais eco em Portugal do que a «beat generation», pelo menos nos meios em que eu me movia.
Embora as fronteiras sejam acinzentadas, os «hippies» apareceram como mais comprometidos colectivamente – o que vinha ao encontro de um certa necessidade de protesto, especialmente sentida na segunda parte dos anos 60, por algumas franjas cá do sítio. A música teve aí um papel importante.
Ótimo post. On the road vai continuar suscitando debates por muitas gerações ainda… (ao menos, assim espero).
abs!
Belo texto, Rui.
Nomeadamente a referência a que “a evasão pela viagem” em Portugal não teve a componente “individual e descomprometida ” o que faz com que ainda hoje isso ne note naqueles que , agora mais velhos, fizeram essa viagem.
Porque se calhar os que o fez mover foi algo exterior a eles e não interior.
Cumprimentos
E também nunca fomos um país de grandes motos! Nunca poderíamos ter grandes beatniks. A minha única hipótese foi a de possuir um enorme poster da “chopper” (como lhes chamavamos) do Jack Nicholson, no “Easy Rider”. Tive amigos que tentaram, tentaram, escrevo bem, construi-las a partir do que então existia por cá (zündapp’s) o que gerava menso gozo entre a tribo “motard” naqueles tempos. Nunca passavam de modelos esqueléticos.
«Um único e magnífico parágrafo, de vários quarteirões, rodando, como a estrada em si», disse Allen Ginsberg a propósito deste livro que poderia citar como um das daqueles que não mudou a minha vida.