Sobre os monumentos (1)

Saddam

O historiador da arte austríaco Alois Riegl considerava o monumento como obra criada pela mão humana com a finalidade de conservar presente, na consciência das gerações futuras, a lembrança de determinada acção ou de uma existência passada que se deseja preservar como modelo. Porém, este objectivo enfrentou sempre uma série de condicionalismos. Desde logo, sendo uma obra de arte pública, o monumento é construído necessariamente por quem detém o poder político ou por um grupo que, mesmo não se encontrando no poder, tem capacidade para impor determinadas formas de reconhecimento do passado. Afinal são quase sempre os vencedores e os fortes os responsáveis pelos monumentos, pois são eles quem possui capacidade para os erguer e, acima de tudo, para os preservar. Os chamados «anti-monumentos», destinados a contrariarem aqueles que possuem uma origem oficial, e por esse motivo dotados de uma intenção subversiva, são inevitavelmente efémeros.

5 Respostas

  1. adoro vir aqui, sabia?

    muito boa leitura, sempre.

    abraços

    della

  2. Monumentos são como paragens no tempo; de algumas gostamos mais do que de outras. A única forma de eles não serem efémeros é despi-los da sua faceta política ou da sua ideologia e olhar para eles como arte… pura e simples!

  3. Não é normalmente possível destituir monumentos públicos de uma faceta política. Terá uma faceta política para alguém.
    Lembro-me de ter assistido à desmontagem, in situ, de alguns importantes monumentos da época colonial, de carácter extraordinariamente político. O monumento público insere-se num contexto, o qual, terminado, inviabiliza a exposição da obra, mas não a sua importância. Gostaria muito de saber onde anda o Gungunhana acorrentado que se encontrava no larga da sé catedral, na ex-Lourenço Marques. Era uma obra de um branco imaculado. Eram relevos muito estado novistas. Anti-monumentos, contudo, monumentos. A intenção subversiva contrariada valoriza-os enquanto obra, curiosamente. Onde andam os nossos anti-monumentos?

  4. Pequenissíma provocação, a propósito: alguém sabe da estátua a Oliveira Salazar, existente em Santa Comba Dão e misteriosamente desaparecida uns dias após 25 de Abril de 1974?
    Ou então, por onde anda a placa que assinalava, em Coimbra, a casa do famoso(no século XIX e ainda muito recordado, durante algumas décadas, no século XX) jornalista coimbrão Joaquim Martins de Carvalho, do, ainda hoje, muito citado jornal “O Conimbricense”. É que ninguém me tem conseguido dizer onde é que ela se encontra. É que, após a transferência para as novas instalações da Biblioteca Municipal de Coimbra, a velha sala dedicada a Martins de Carvalho desapareceu…e a placa, que por lá ainda se encontrava desapareceu… suave mistério. Já agora questiono, porque não voltar a coloca-la, a ela, ou a outra no seu devido sitío? É que eu sei onde é o sitio, só me falta a placa. -)

  5. Bingo! A primitiva estátua de Salazar, em Santa Comba, foi dinamitada pouco tempo depois do 25 de Abril. Conheço (por acaso?) dois dos autores do acto e foi essa a versão que me contaram. Foi isso também que correu nos jornais. Pelo que restarão, quanto muito, alguns cacos.
    Bingo dois! Também assisti ao processo de delapidação de parte do espólio de Joaquim Ramos de Carvalho, depositado nas antigas instalações de Biblioteca Municipal de Coimbra. Em 1982 (sei precisar a data), cheguei, sem identificação ou requisição, a trazer para a rua documentos do mesmo, em dias de chuva e ventania, para os poder fotocopiar. Por acaso devolvi-os, mas não aconteceu o mesmo com outras pessoas.
    Bingo três! Estava em Luanda quando algumas dessas estátuas foram apeadas. Uma delas, imagine-se, era a de D. Afonso Henriques! Claro que houve quem tivesse ficado escandalizado pelo atentado à história-pátria.

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