
Lembro-me dos «velhos republicanos», frágeis mas aprumados, com os seus dignos cabelos brancos e as suas coroas de flores a cada 5 de Outubro. E todos sabíamos que eram apenas vestígios de um tempo que se fora. Evocavam um dia para nós distante, intocável, ao qual apenas nos ligavam os laços simbólicos de uma memória contada nos manuais. Mas nada mais: o “herói da Rotunda” era uma fotografia descolorida, José Relvas e os seus apenas um grupo de cavalheiros ligeiramente descompostos num filme de cinema mudo. E, no entanto, quantos temores, emoções, momentos de bravura, certezas de que agora sim é que ia ser tudo como se esperara que fosse.
Sei que os meus alunos, e que os filhos dos meus alunos, observam da mesma forma a multidão do Rato, a tensão no rosto do capitão Maia, a tropa-fandanga na rua com cravo vermelho na ponta da espingarda. Sei que não pode deixar de ser assim, pois foi um tempo, outro tempo, ao qual muitos dos que passam agora por mim na rua apenas chegam pela inteligência, a leitura dos suplementos, os solenes discursos num florido São Bento, as aulas descritivas ou marcadas por uma nostalgia incompreensível. E sei que é assim e que não pode deixar de ser assim porque os temores, as emoções, os momentos de bravura, as certezas de que agora sim é que ia ser tudo como se esperara que fosse, não são coisa que se possa viver todos os dias.
Por isso deixei há alguns anos de ir à festa a cada 25. Mas continuo a falar do 24, pois assim a urgência fica mais fácil de entender. E a falar também daquele tórrido 26, no qual uma outra urgência continuava na rua e jamais dormia. Talvez assim, para quem o não viveu, ou para quem dele se vai esquecendo, Abril possa fazer algum sentido. Oxalá.
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sem abril não poderia haver este blog, a liberdade de falarmos , de agirmos
para quem não viveu os dias a seguir ao 25 de abril não saberá do sabor inacreditável de acreditar na solidariedade sem fronteiras
mas saberá do sabor incomparável de ter crescido em liberdade
que os nossos corações deixem espaço para contínuos diálogos
Na verdade relativa de todas as coisas – a vida são vagarosos instantes construidos em
sonhos acordados –
Se no bairro não há espaço para cantar – vamos de novo e sempre construir um sonho acordado.Abril – obviamente.
Um abraço grande
neste abril
e que se abram portas:)
A propósito do sentimento em mim prevalecente, neste período comemorativo-revolucionário, vem-me à memória uma velha, nostálgica, mas bela canção francesa : “Que reste-t-il de nos amours… ” agora que a França voltou a ser falada, não com desdém ou displicência, mas com alguma curiosidade, por ocasião da sua eleição presidencial.
Cada ano que passa, mais me entristece festejar uma Democracia como a nossa, de Abril designada, que tem permitido tanta venalidade, em que se tem visto triunfar tanta mediocridade, tanta falsa virtude exaltada, onde o compadrio atingiu níveis inimagináveis, tudo distorcendo, tudo desacreditando, corroendo tantos sonhos juvenis de há trinta e três anos. Que nos resta hoje desse rosário de ilusões ?
Diz-se que em Democracia há sempre, para todas as situações, alternativa política, mas em Portugal, pelo menos, este suposto axioma começa a pôr à prova a nossa genuína credulidade…
Onde estarão os que nos podem resgatar as esperanças políticas de há trinta e três anos, hoje já quase moribundas ?
«Ce qui reste de nos amours», é apesar de todos os tropeções, a liberdade e a democracia – cheia de defeitos, mas melhor do que tudo o resto.
O pessimismo excessivo paralisa.
Concordo inteiramente, embora a melhor forma de optimismo se encontre provavelmente na busca de novos caminhos e de outras utopias. Sem esquecer as que deram sentido a muitas das nossas vidas e prepararam o presente, mas sabendo que todas elas são transitórias.
Por dever de profissão, vivo entre pessoas para quem o 25 de Abril pouco diz, pois não eram nascidas na altura, e nem por isso considero a maioria delas desinteressadas na mudança do mundo. Mas sei que o pior que se pode fazer é atirar-lhes para a frente com clichés que não podem (e é natural que não possam) compreender.
Falo-lhes muito mais do tal 24 do que do 25, mais dos factos (que podem conhecer) que das emoções (que jamais partilharão connosco, pois vivem intensamente outras). Não vejo drama nisto, mas também não garanto que a minha posição seja a melhor. Vamos por tentativas, como sempre…
E essa é, afinal, a melhor das tentativas que temos ao nosso dispor no momento actual.
Abril não foi o fim da história e já não será mau se granjear melhor memória que a I República, pois não?
Também tenho saudades de Abril. Era pequena, e visto do mundo de uma adolescente, o mundo era como um reservatório de experiências e de possibilidades.
Continuo a acreditar. Mas paradoxalmente, é no olhar de um velho resistente, nessa fractura de tempo e desencanto, que procuro e reencontro razões. De tanta generosidade e partilha, desse mar que o Tejo e outras águas abraçaram plácidamente. E agora? continuar a contar as histórias que ainda apertam a garganta, à minha filha de dez e a outros meninos e meninas, e aos adolescentes que como eu acreditava, acreditam que é possível tocar o céu, basta levantar a mão e tocar-lhe. Eis porque há razões para outro Abril cada dia. Apesar de tudo.